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sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

COINCIDÊNCIAS ENTRE AS OPOSIÇÕES, NO BRASIL E NA VENEZUELA


CUBA, VENEZUELA E BRASIL


Quem quer agitar um velho 

espantalho da Guerra Fria

Paulo Moreira Leite
Diretor da Sucursal da ISTOÉ em Brasília, é autor de "A Outra História do Mensalão". Foi 
correspondente em Paris e Washington e ocupou postos de direção na VEJA e na Época. 
Também escreveu "A Mulher que Era o General da Casa".

Num   momento em que o publicitário aposentado Enio Mainardi pede 
“contrarrevolução já” e apela para golpe militar para impedir que uma 
aliança formada pelo presidente venezuelano Nicolas Maduro, Lula, Dilma 
e Fidel Castro transforme nosso Continente numa “ex-Democracia, 
comandada por líderes comunistas”, convém definir o que pode haver 
de realidade além do folclore anacrônico e ridículo. 
Em 25 minutos imperdíveis, o jornalista Igor Fuser foi a GloboNews para 
dar uma aula impecável sobre a realidade venezuelana desde a chegada 
de Hugo Chávez ao poder, uma década e meia atrás. Quem não assistiu 
não pode perder a oportunidade.
Há mais de uma década que a oposição brasileira procura  semelhanças 
entre o governo Lula-Dilma e Hugo Chávez. Esses paralelos fazem parte 
daquelas fantasias comuns no período da Guerra Fria que continuam  
reproduzidas pela turma que não aproveitou a globalização para ler jornais 
melhores. 
Chávez chegou ao poder como um político de formação revolucionária, 
com um compromisso favorável a mudanças radicais que nunca fizeram 
parte do horizonte de Lula. 
A partir de uma perspectiva diferente, Chávez também teve uma atuação 
diferente, de quem fazia apostas na mobilização popular para enfrentar e 
derrotar a elite de seu país – em vez de procurar o consenso e a negociação, 
que sempre foram instrumentos prediletos de Lula. No plano internacional, 
o presidente brasileiro teve uma convivência com o presidente George W Bush 
que seria considerada inaceitável por Chávez.
 O que há de mais parecido nos dois países não são os governos, mas a postura 
de suas oposições diante do processo de mudança social em curso na Venezuela 
e no Brasil. 
 Derrotada nas urnas há 15 anos, sem intervalos, a oposição venezuelana fez 
diversas tentativas de impedir a consolidação de Hugo Chávez no poder. Deu 
um golpe de Estado de 72 horas, no início de 2002. Apesar do apoio 
incondicional da Embaixada americana, que usou sua influencia para pedir o reconhecimento imediato do novo governo, o repúdio internacional – 
inclusive do governo Fernando Henrique Cardoso – levou à restauração 
democrática e permitiu o retorno de Chávez ao poder.
 No final daquele mesmo ano, a oposição ensaiou um segundo golpe. Paralisou 
as refinarias de petróleo  – responsáveis por 90% das divisas necessárias a 
compra de bens de primeira necessidade, inclusive alimentos e roupas – numa 
tentativa de sufocar a economia e forçar a queda do governo. Já eleito novo 
presidente, Lula teve um papel essencial no desarme da crise. Anunciou que 
no primeiro dia da posse a Petrobrás iria enviar um navio de petróleo em 
direção a Caracas. Lula também articulou, com presidentes de países vizinhos, 
o apoio a convocação de um referendo revocatório, pelo qual Chávez 
consultaria a população sobre sua permanência na presidência. Inicialmente 
desconfiado, Chávez acabou concordando com a iniciativa. Venceu o referendo 
sem dificuldade, ampliando sua base política de apoio.
 No episódio seguinte, a oposição apostou na criação de uma nova crise a 
partir de uma decisão suicida. Convencidos de que não teriam chances de 
obter uma parcela importante das cadeiras na Assembleia Nacional, seus 
lideres boicotaram as eleições parlamentares. A ideia era  retirar a legitimidade 
de toda decisão que saísse do Legislativo para forçar uma nova paralisia do 
governo e facilitar novas iniciativas de isolamento internacional. Mais uma 
vez, deu errado. Mesmo sem oposição parlamentar, o governo Chávez foi 
capaz de agir dentro de um quadro coerente com a relação de forças do país. 
Manteve a iniciativa política,   aprovou medidas de acordo com seu programa 
mas dificilmente será acusado – a sério – de aproveitar-se da retirada de seus 
adversários para cometer aventuras políticas. Na prática, era acusado de 
monopolizar o poder por uma oposição que fora reduzida, por decisão de sua 
única responsabilidade, a  um papel de comentar os atos do governo.
O que se vê, na atitude da oposição venezuelana é uma visão clara e radical 
da situação política. Não é capaz de aceitar, democraticamente, um 
prolongado quadro institucional desfavorável, marcado por sucessivas derrotas 
eleitorais que, de uma forma ou de outra, têm resultado em medidas que a 
maioria da população aprova. Seu horizonte é o da ruptura e do golpe de 
Estado, convencida de que, se fizer sua parte, isto é, demonstrar competência 
para produzir a queda de Nicolas Maduro, não lhe faltará o necessário apoio 
dos Estados Unidos para consolidar a nova ordem.
 Em 2002, com George W Bush na Casa Branca, a política de combate ao 
chamado “Eixo do Mal” assegurou um papel ativo de emissários norte-
americanos a  Caracas, a tal ponto que muitas posições na embaixada 
americana passaram ao controle de veteranos de operações anti-comunistas 
na América Central, os contras que atuaram na Nicarágua e El Salvador. Com 
Barack Obama, a Casa Branca manteve-se numa posição menos ativa, ainda 
que, nos últimos dias, com a evolução da crise em Caracas, tenha feito 
exigências fora do tom diplomático aceitável. A presença de aliados de 
Maduro nos principais países vizinhos, a começar pelo governo brasileiro, 
de longe o Estado mais influente da região, é um elemento poderoso de 
dissuasão contra um envolvimento maior dos EUA. A reação firme contra o 
golpe que derrubou o presidente Lugo, no Paraguay, tem algo a ver com isso.
 Os médicos cubanos se tornaram uma obsessão da oposição brasileira depois 
de terem ocupado o mesmo lugar na estratégia da oposicáo venezuelana.  
Cheguei a visitar centros de saúde da periferia de Caracas e também 
entrevistei o responsável pela Organização Pan Americana de Saúde, que 
possui estatísticas capazes de mostrar o progresso ocorrido nas regiões 
mais pobres do país.
Embora a oposição faça questão de desqualificar médicos cubanos, é difícil 
negar oferecem aos venezuelanos um cuidado e um tratamento a que eles 
jamais tiveram acesso. Ganham muito menos do que os rendimentos 
auferidos pelos médicos do país. Mas é justamente por isso que são capazes 
de prestar serviços que jamais puderam ser oferecidos aos venezuelanos 
pobres. Alguma semelhança com o Mais Médicos? 
Com uma dependência histórica das exportações de petróleo, um mercado 
interno relativamente pequeno, a Venezuela pagou um preço mais alto do 
que o Brasil pela crise internacional iniciada em 2008. O crescimento 
econômico caiu, a inflação subiu, o desemprego aumentou. Mas mesmo 
assim, Chávez conseguiu se eleger – já doente terminal – e seu sucessor 
nomeado, Nicolas Maduro, foi escolhido como novo presidente, numa prova 
de que a população resiste na defesa de suas conquistas.
No Brasil, que vive uma situação objetiva mais confortável, a oposição 
precisa do pessimismo psicológico como uma política permanente. 
Compreende-se. Com índices excelentes de emprego e de contínua 
distribuição de renda, é complicado travar uma discussão eleitoral aberta, 
a partir de argumentos racionais e propostas objetivas. É necessário alimentar 
o tumulto, criar a desesperança, forjar o medo.
 Publicitários sabem fazer isso.
 Em 1962, Juarez Bahia perdeu o emprego de redator chefe do Correio da 
Manhã, então o mais influente jornal brasileiro, quando se recusou a engajar 
a publicação numa campanha para obrigar o governo João Goulart a 
(advinhou!) romper relações com Cuba.
As  mais aplicadas partidários da ruptura, nos meios de comunicação, eram 
as filiais das grandes agencias de publicidade norte-americanas.
Dois anos depois da saída de Juarez Bahia, o Correio fez o editorial “Basta!”, 
quando deixou o campo da democracia, onde havia firmado uma invejável 
tradição, para apoiar o golpe militar que derrubou Goulart.
http://istoe.com.br/colunas-e-blogs/colunista/48_PAULO+MOREIRA+LEITE  

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

BELA ENTREVISTA COM FIDEL CASTRO, HÁ TRÊS SEMANAS

Mais duas horas com Fidel

Fidel me esperava na entrada do salão de sua casa, uma peça ampla e 

luminosa aberta sobre um ensolarado jardim. Aparentava estar em 

estupenda forma.



Ignacio Ramonet
Divulgação
Fazia um dia de primaveral doçura, submer-
gido por essa luz refulgente e esse ar crista-
lino tão característicos do mágico dezembro 
cubano. Chegavam cheiros do oceano pró-
ximo e se ouviam as verdes palmeiras em-
baladas por uma lânguida brisa. Em um 
desses « paladares » que abundam agora 
em La Habana, estava eu almoçando com 
uma amiga. De repente, tocou o telefone. 
Era meu contato: « A pessoa que desejavas ver, está te esperando em meia 
hora. Apressa-te.  » Deixei tudo, me despedi da amiga e me dirigi ao lugar in-
dicado. Ali me aguardava um discreto veículo cujo chofer guiou de imediato 
rumo ao oeste da capital.

Eu tinha chegado a Cuba quatro dias antes. Vinha da Feira de Guadalajara 
(México) onde estive apresentando meu novo livro “Hugo Chávez. Mi primera 
vida - conversaciones con el líder de la revolución bolivariana”  . Em La Habana, 
se celebrava com imenso êxito, como cada ano por essas datas, o Festival do 
Novo Cinema Latino-americano. E seu diretor Iván Giroud teve a gentileza de 
me convidar para a homenagem que o Festival desejava prestar a seu funda-
dor Alfredo Guevara, um autêntico gênio criador, o maior impulsionador do 
cinema cubano, falecido em abril de 2013.

Como sempre, quando pouso em La Habana, havia perguntado por Fidel. E, 
através de vários amigos comuns, havia transmitido minhas saudações. Fazia 
mais de um ano que não o via. A última vez tinha sido em 10 de fevereiro de 
2012 no marco de um grande encontro « pela Paz e a preservação do Meio 
Ambiente », organizado à margem da Feira do livro de La Habana, no qual o 
Comandante da revolução cubana conversou com uma quarentena de inte-
lectuais.

Foram abordados, naquela ocasião, os temas mais diversos, começando pelo 
« poder midiático e a manipulação das mentes » do qual me tocou falar em 
um tipo de palestra inaugural. E não me esqueço da pertinente reflexão que Fi-
del fez ao final de minha exposição: « O problema não está nas mentiras que 
os meios dominantes dizem. Isso não podemos impedir. O que devemos pen-
sar hoje é como nós dizemos e difundimos a verdade. »

Durante as nove horas que durou essa reunião, o líder cubano impressionou 
seu seleto auditório. Demostrou que, já com 85 anos de idade, conservava in-
tacta sua vivacidade de espírito e sua curiosidade mental. Intercambiou ideias, 
propôs temas, formulou projetos, projetando-se para o novo, para a mudan-
ça, para o futuro. Sensível sempre às transformações em curso do mundo.

Quão diferente o encontraria agora, dezenove meses depois? Me perguntava 
a bordo do veículo que me aproximava dele. Fidel havia feito poucas aparições 
públicas nas últimas semanas e havia difundido menos análises ou reflexões 
que em anos anteriores .

Chegamos. Acompanhado de sua sorridente esposa Dalia Soto del Valle, Fidel 
me esperava na entrada do salão de sua casa, uma peça ampla e luminosa 
aberta sobre um ensolarado jardim. O abracei com emoção. Aparentava estar 
em estupenda forma. Com esses olhos brilhantes como estiletes sondando a 
alma de seu interlocutor. Impaciente já de iniciar o diálogo, como se tratasse, 
dez anos depois, de prosseguir nossas longas conversações que deram lugar 
ao livro « Ciem horas com Fidel  ».

Ainda não havíamos sentado e já me formulava uma infinidade de perguntas 
sobre a situação econômica na França e a atitude do governo francês... Duran-
te duas horas e meia, falamos de tudo um pouco, pulando de um tema a ou-
tro, como velhos amigos. Obviamente se tratava de um encontro amistoso, 
não profissional.
Nem gravei nossa conversação, nem tomei nenhuma nota durante o trans-
curso da conversa . E este relato, além de dar a conhecer algumas reflexões 
atuais do líder cubano, só aspira responder a curiosidade de tantas pessoas 
que se perguntam, com boas ou más intenções: como está Fidel Castro?

Já disse: estupendamente bem. Perguntei-lhe por que ainda não havia publi-
cado nada sobre Nelson Mandela, falecido havia já mais de uma semana. 
« Estou trabalhando nisso, declarou, terminando o rascunho de um artigo . 
Mandela foi um símbolo da dignidade humana e da liberdade. O conheci mui-
to bem. Um homem de uma qualidade humana excepcional e de uma nobre-
za de ideias impressionante. É curioso ver como os que ontem amparavam 
o Apartheid, hoje se declaram admiradores de Mandela. Que cinismo! A gen-
te se pergunta, se ele só tinha amigos, quem então prendeu Mandela? Como 
o odioso e criminoso Apartheid pode durar tantos anos? Mas Mandela sabia 
quem eram seus verdadeiros amigos.
 
Quando saiu da prisão, uma das primeiras coisas que fez foi vir visitar-nos. 
Nem sequer era ainda presidente da África do Sul! Porque ele não ignorava 
que sem a proeza das forças cubanas, que romperam a coluna vertebral da 
elite do exército racista sul-africano na batalha de Cuito Cuanavale [1988] e 
favoreceram, assim, a independência da Namíbia, o regime do Apartheid não 
teria caído e ele teria morrido na prisão. E isso que os sul-africanos possuíam 
várias bombas nucleares, e estavam dispostos a utilizá-las! »

Falamos depois de nosso amigo comum Hugo Chávez. Senti que ainda esta-
va sob a dor da terrível perda. Evocou o Comandante bolivariano quase com 
lágrimas nos olhos. Me disse que havia lido, « em dois dias », o livro « Hugo 
Chávez. Mi primera vida ». « Agora tens que escrever a segunda parte. Todos 
queremos ler. Deves isso a Hugo. », completou. Aí interveio Dalia para comen-
tar que esse dia [13 de dezembro], por insólita coincidência, fazia 19 anos do 
primeiro encontro dos dois Comandantes cubano e venezuelano. Houve um 
silêncio. Como se essa circunstância lhe conferisse naquele momento uma in-
definível solenidade à nossa visita.

Meditando para si mesmo, Fidel se pôs então a lembrar daquele primeiro en-
contro com Chávez no dia 13 de dezembro de 1994. « Foi uma pura casuali-
dade, relembrou. Soube que Eusebio Leal tinha convidado ele para dar uma 
conferência sobre Bolívar. E quis conhecê-lo. Fui esperá-lo ao pé do avião. Coi-
sa que surpreendeu muita gente, incluindo o próprio Chávez. Mas eu estava 
impaciente por vê-lo. Nós passamos a noite conversando. » « Ele me contou, 
eu disse, que sentiu que você estava fazendo ele passar por um exame... » Fi-
del se larga a rir:
« É verdade! Queria saber tudo dele. E me deixou impressionado... Por sua 
cultura, sua sagacidade, sua inteligência política, sua visão bolivariana, sua gen-
tileza, seu humor... Ele tinha tudo!  Me dei conta que estava em frente a um 
gigante da talha dos melhores dirigentes da história da América Latina. Sua 
morte é uma tragédia para nosso continente e uma profunda desdita pes-
soal para mim, que perdi o melhor amigo... »

« Você vislumbrou, naquela conversa, que Chávez seria o que foi, ou seja, o 
fundador da revolução bolivariana? » « Ele partia com uma desvantagem: era 
militar e havia se sublevado contra um presidente socialdemocrata que, na 
verdade, era um ultraliberal... Em um contexto latino-americano com tanto 
gorila militar no poder, muita gente de esquerda desconfiava de Chávez. Era 
normal.
 
Quando eu conversei com ele, há dezenove anos agora, entendi imediata-
mente que Chávez reivindicava a grande tradição dos militares de esquerda 
na América Latina. Começando por Lázaro Cárdenas [1895-1970], o gene-
ral-presidente mexicano que fez a maior reforma agrária e nacionalizou o 
petróleo em 1938... »

Fidel fez um amplo desenvolvimento sobre os « militares de esquerda » na 
América Latina e insistiu sobre a importância, para o comandante bolivariano, 
do estudo do modelo constituído pelo general peruano Juan Velasco Alvara-
do. « Chávez o conheceu em 1974, em uma viagem que fez ao Peru sendo 
ainda cadete. Eu também me encontrei com Velasco uns anos antes, em de-
zembro de 1971, regressando de minha visita ao Chile da Unidade Popular e 
de Salvador Allende. Velasco fez reformas importantes, mas cometeu erros. 
Chávez analisou esses erros e soube evitá-los.  »

Entre as muitas qualidades do Comandante venezuelano, Fidel sublinhou 
uma em particular: « Soube formar toda uma geração de jovens dirigen-
tes; a seu lado adquiriram uma sólida formação política, o que se revelou 
fundamental depois do falecimento de Chávez, para a continuidade da re-
volução bolivariana. Aí está, em particular, Nicolás Maduro com sua firme-
za e sua lucidez que lhe permitiram ganhar brilhantemente as eleições de 
8 de dezembro. Uma vitória capital que o afiança em sua liderança e dá 
estabilidade ao processo. Mas em torno de Maduro há outras pessoalida-
des de grande valor como Elías Jaua, Diosdado Cabello, Rafael Ramírez, 
Jorge Rodríguez... Todos eles formados, às vezes desde muito jovens, 
por Chávez. »

Nesse momento, se somou à reunião seu filho Alex Castro, fotógrafo, 
autor de vários livros excepcionais . Se pôs a tirar algumas imagens « para 
recordação » e se eclipsou depois discretamente.

Também falamos com Fidel do Irã e do acordo provisório alcançado em 
Genebra, no último dia 24 de novembro, um tema que o Comandante cu-
bano conhece muito bem e que desenvolveu em detalhe para concluir dizen-
do: « O Irã tem direito a sua energia nuclear civil. » Para em seguida advertir 
do perigo nuclear que corre o mundo pela proliferação e pela existência de 
um excessivo número de bombas atômicas em mãos de várias potências 
que « têm o poder de destruir várias vezes nosso planeta ».

Preocupa-o, há muito tempo, a mudança climática e me falou do risco que 
representa a respeito o relançamento, em várias regiões do mundo, da ex-
ploração do carvão com suas nefastas consequências em termos de emis-
são de gases de efeito estufa: « Cada dia, me revelou, moerem umas cem 
pessoas em acidentes de minas de carvão. Uma hecatombe pior que no sé-
culo XIX... »

Continua interessando-se por questões de agronomia e botânica. Me mos-
trou uns frascos cheios de sementes: « São de amoreira, me disse, uma 
árvore muito generosa da qual se pode tirar infinitos proveitos e cujas folhas 
servem de alimento para o bicho da seda... Estou esperando, dentro de um 
momento, um professor, especialista em amoreiras, para falar deste assun-
to. »

« Vejo que você não para de estudar. », lhe disse. « Os dirigentes políticos, 
me respondeu Fidel, quando estão ativos carecem de tempo. Nem sequer po-
dem ler um livro. Uma tragédia. Mas eu, agora que já não estou na política ati-
va, me dou conta de que tampouco tenho tempo. Porque o interesse por um 
problema te leva a interessar-te por outros temas relacionados. E assim vais 
acumulando leituras, contatos e, de repente, te dás conta que te falta o tempo 
para saber um pouco mais de tantas coisas que gostaria de saber... »
As duas horas e meia passaram voando. Começava a cair a tarde sem crepús-
culo em La Habana e o Comandante ainda tinha outros encontros previstos. 
Me despedi com carinho dele e de Dalia. Particularmente feliz por ter constata-
do que Fidel continua tendo seu espetacular entusiasmo intelectual.

domingo, 15 de dezembro de 2013

MANDELA FALA DE FIDEL CASTRO; OBAMA FALA DE MANDELA

O encontro de Mandela com Fidel

Carlos Pompe *

Em seu discurso na terça-feira, 10, nos funerais do Nelson 

Mandela, o presidente de Cuba, Raúl Castro, relembrou a 

visita do homenageado ao seu país, em julho de 1991. Na 

época, Mandela foi recebido por Fidel Castro e lhe agrade-

ceu o apoio à luta sul-africana. Mandela e Fidel compartilha-

ram a tribuna na comemoração de 26 de julho, em Matanzas.


Em abril de 1994, Mandela assumiu a presidência da África 
do Sul e, em novembro de 1994, Angel Dalmau Fernández 
apresentou suas credenciais como primeiro embaixador de 
Cuba naquele país. Nelson Mandela fez ao embaixador três 
perguntas: Como está Cuba? Como está meu irmão Fidel? 
Como está Teófilo Stevenson?

Mandela foi boxeador quando jovem e, durante quase suas 

três décadas de preso político na ilha de Robben e em outros 
cárceres, foi seguidor da carreira do cubano Stevenson, o 
melhor boxeador amador naquele período. Em julho de 1991, 
quando visitou Cuba, Mandela havia conhecido pessoalmente 
Fidel Castro e Teófilo.

Sobre essa vista, Mandela comenta com o escritor Richard 

Stengel, seu colaborador na biografia “Longo caminho para 
a liberdade”:

“Fidel é um sujeito realmente impressionante... Discursamos 

em um comício juntos. Como é o nome daquela cidade, rapaz? 
Uma multidão como aquela em um país pequeno? Era uma 
plateia fantástica, uma multidão; acho que havia cerca de 300 
mil pessoas. Todo mundo sentado em cadeiras. Ele falou du-
rante cerca de três horas sem um pedaço de papel, citou núme-
ros e demonstrou que a América estava falida, sabia? E nem 
uma única pessoa saiu, exceto para ir ao banheiro e voltar... Eu 
fiquei muito impressionado com Fidel e também com sua sim-
plicidade – é um sujeito muito simples. Quando... eu estava des-
filando com ele de carro aberto pela cidade, ele apenas sentou 
e cruzou os braços, e eu era a pessoa que estava acenando pa-
ra a multidão... Depois de discursarmos, nós... entramos no 
meio da multidão; ele saiu cumprimentando todo mundo... Eu re-
parei que ele cumprimenta... uma pessoa branca, depois vai 
cumprimentar alguém de cor. Não sei se aquilo foi puramente 
acidental ou intencional. [Ele era] muito caloroso, conversava 
com as pessoas por algum tempo... Foi então que percebi que 
aquele entusiasmo e todos aqueles acenos na verdade não eram 
para mim enquanto estávamos desfilando de carro pela cidade; 
eram para Fidel... Ninguém estava nem um pouco interessado em 
mim [risos]... fiquei impressionado com ele”.

O relato está no livro “Conversas que tive comigo”, de Nelson 

Mandela, de 2010, prefaciado pelo presidente dos Estados Unidos, 
Barack Obama. O único negro a chegar à Casa Branca diz que suas primeiras ações políticas “aconteceram nos meus anos de faculda-
de, quando participei de uma campanha a favor do desinvestimento, 
no esforço para pôr fim ao apartheid na África Sul”, quando já admirava Mandela. 

Mais de duas décadas depois, recém-eleito senador, visitou a África 

do Sul e a antiga cela do líder da luta contra o racismo, na Ilha Robben. 
Antes de ser eleito presidente norte-americano, Obama conheceu pessoalmente Mandela, e conta que “desde então conversamos ocasionalmente por telefone. Geralmente, nossas conversas são 
breves – ele está no crepúsculo dos anos, e eu estou às voltas com 
a intensa programação que meu cargo exige. Mas nessas conversas 
sempre há momentos em que brilham a gentileza, a generosidade e 
a sabedoria desse homem. Esses momentos me recordam que, sub-
jacente à história que foi construída, existe um ser humano que esco-
lheu sobrepor a esperança ao medo – sobrepor o progresso às prisões 
do passado. E me recordam que, mesmo depois que se tornou uma 
lenda, conhecer o homem Nelson Mandela é respeitá-lo ainda mais”.

(No Fórum Social Mundial de 2001, em Porto Alegre, pude conhecer 

e conversar informalmente com o grande campeão Teófilo Stevenson, 
um meu herói de infância pelo fato de ter recusados ofertas de mi-
lhões de dólares para deixar Cuba e fazer propaganda contra a Revolu-
ção. Preferiu viver com seu povo, ajudando a preparar as sempre ex-
celentes equipes de boxe de sua Pátria, que tantas medalhas conquis-
taram nos Jogos Olímpicos e campeonatos internacionais - ABF)


http://www.vermelho.org.br/coluna.php?id_coluna_texto=5581&id_coluna=2