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sábado, 2 de novembro de 2013

BELA LIÇÃO DE JORNALISMO, POR MINO CARTA

Na rota da qualidade

Quem supõe a agonia da mídia impressa não percebe que a garantia da permanência está no jornalismo honesto, na análise independente e na reportagem investigativa
por Mino Carta — publicado 01/11/2013 05:57

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Na festa de CartaCapital, o encontro cordial entre dois futuros adversários à Presidência da República
Segunda 28 realizou-se a já tradicional festa de CartaCapital, destinada a entregar os prêmios das empresas e dos empresários mais admirados no Brasil e a celebrar, com o atraso de dois meses, também tradicional, o aniversário da revista, no caso o décimo nono. Como se deu desde o começo do seu mandato, contamos com a presença, muito honrosa para nós, da presidenta Dilma Rousseff. A cobertura do evento está nesta edição e uma edição especial nas bancas.

Limito-me aqui a comemorar uma trajetória de longo curso: dezenove anos não é pouco, tanto mais para uma publicação que rema contracorrente e se defronta com um critério dito técnico cultuado por quem valoriza as tiragens sem atentar para a importância da audiência. Diga-se que a busca de tiragens cada vez mais elevadas, e nem tanto, levou o jornalismo brasileiro a uma indiscutível decadência. A partir da ideia nefasta: o público é primário, talvez monoglota.
A mídia nativa esforçou-se para baixar o nível, na firme determinação de despencar de estágios bem mais altos, atingidos décadas atrás, ao menos do ponto de vista formal. O Brasil contou com jornalistas notáveis, que não foram solitários na prática da boa escrita. A operação a favor da mediocridade foi, porém, vitoriosa, e os profissionais mergulharam nos redemoinhos que haviam provocado. Confrontado com o jornalismo dos países do ex-Primeiro Mundo, o nosso dá pena.

Ouço e leio, de uns tempos para cá, que a mídia impressa está em xeque diante do avanço avassalador da tecnologia. Verdade factual: somos alcançados diariamente por um alude de informações, onde quer que nos encontremos, a agravar a situação criada pelo advento, antes do rádio, depois da televisão. Quem esperava pelo jornal diário para saber das novidades hoje verifica logo de manhã que já sabe de tudo.
Na noite de segunda passada, ao dar as boas-vindas à festa de CartaCapital, arrisquei-me a dizer que para a mídia impressa há saídas, até bem convenientes, para ela e seus leitores. Trata-se de partir, com o devido destemor, para o rincão feliz da qualidade. Pertenço a uma geração de jornalistas voltados dia e noite à tarefa de ilustrar o público. De iluminá-lo. No Brasil, andamos no sentido oposto, embora seja justo acentuar que o problema da concorrência tecnológica abarca o mundo todo. E esta também é verdade factual.
Não é preciso inquirir os botões para entender que significa qualidade. Ou, por outra: além de honesto, atrelado ao interesse dos leitores em lugar daquele da casa-grande e afeito ao melhor emprego do vernáculo, o jornalismo haverá de percorrer os dois atalhos que as circunstâncias lhe oferecem. O primeiro, da análise, competência de quem dispõe de autoridade e cultura, donde de credibilidade, não para pretender a concordância do leitor, habilitado, contudo, a contribuir para que o próprio forme livremente sua opinião.
O segundo, da informação exclusiva, o furo, como se diz na linguagem das redações. Trata-se da notícia que somente alguns profissionais conseguem colher, fiéis da chamada reportagem investigativa, há tempo abandonada pela mídia nativa, a bem de telefones e computadores e da aposentadoria dos perdigueiros da informação. CartaCapital rema contracorrente, como disse acima, mas na convicção de que este exato rumo leva à permanência da mídia impressa. O amanhã avisa: as tiragens perdem sentido, em proveito de um jornalismo dirigido a plateias restritas, no entanto decisivas. Diziam os sábios da antiga Roma: verba volant, scripta manent, as palavras voam, a escrita fica.

O neoliberalismo alargou a distância entre ricos e pobres, o avanço da tecnologia ameaça alargá-la entre letrados e iletrados. Corremos o risco de recriar, pelas rotas deste progresso, uma Idade Média cultural, a exprimir altíssimas e crescentes taxas de superficialidade, quando não de ignorância. Não ouso, porém, perguntar a respeito aos meus botões, por ora não quero alongar-me no assunto.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

MINO CARTA DIZ QUE A VEJA, HOJE, É "MONSTRO"


Mino sobre a Veja: “Criei um monstro”


Por Chico Bicudo, em seu blog:


O mediador levou cerca de cinco minutos para fazer as devidas apresentações e relembrar apenas algumas das experiências profissionais vividas pelo convidado da noite de abertura da 19 Semana de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero. Ele subiu ao palco e, ao receber o microfone, confessou que naquelas situações fica sempre tentado a cantar “Strangers in the night”, imortalizada na voz de ninguém menos que Frank Sinatra. A plateia (o auditório estava lotado) se animou e insistiu, entoando o tradicional coro de “canta, canta!”. “A tentação é forte. Mas vou conter a empolgação. Resistirei”, recusou elegantemente o jornalista Mino Carta, diretor de redação da revista Carta Capital. O que se ouviu então, e durante quase as duas horas seguintes, foram sinceras e mais do que relevantes lições sobre elementos e princípios do (bom) Jornalismo.


Mino reconheceu que não seria exatamente portador de boas notícias. Apesar de vislumbrar que no longo prazo o Brasil será um país feliz e muito importante no cenário internacional, ressaltou que ainda não alcançamos tal estágio justamente por conta de nossas elites – que classifica como uma das piores e mais atrasadas do mundo. “A elite herdeira do ideal da Casa Grande cuidou para que as coisas por aqui continuassem medievais. É assim que nossas oligarquias sobrevivem”.


Por consequência lógica, completou Mino, o jornalismo não escapa desse cenário. Expressa e representa o que somos, como somos, os nossos conflitos – e atrasos. Ele citou como exemplo a cobertura feita pela mídia grande na semana passada a respeito do título de doutor honoris causa recebido pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condecorado pelo Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences Po, uma das instituições mais importantes e renomadas do mundo na área), por conta da “revolução econômica e social pacífica promovida no Brasil nos últimos oito anos”.


Na entrevista coletiva ocorrida após a homenagem, repórteres brasileiros presentes à cerimônia faziam questão de não esconder o inconformismo com a conquista. Como lembrou Mino, um deles perguntou ao diretor do Instituto francês como era possível alguém receber o título sem que jamais tivesse lido livro algum… Um segundo questionou: como entregar algo tão grandioso a alguém que permitiu a corrupção em larga escala? E um terceiro ainda explicitou que era inexplicável que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso não tivesse alcançado o mesmo grau. “Essas perguntas provam muita coisa”, alertou Mino, reconhecendo que Lula, durante os dois mandatos, deixou de promover mudanças que o jornalista considerava importantes, mas também destacando que o balanço final que faz da “Era Lula” é positivo, além de reforçar que a eleição e o governo de um ex-metalúrgico significaram um divisor de águas na História do país, pela simbologia que carregam. “Naquele momento, indignados, os jornalistas estavam expressando o discurso dos patrões e claramente manifestando seu ódio de classe”, confirmou. “Os donos de nossos meios de comunicação adorariam viver em uma democracia sem povo. E somos o único país do mundo onde jornalista chama o patrão de colega”, completou, contrariado.


Sem minimizar a importância da universidade, Mino disse que é nas redações que se aprende a ser jornalista. Para tanto, segundo ele, é preciso reunir alguns talentos. O primeiro: lidar bem com o vernáculo. Segundo: desenvolver sólido conteúdo moral. Foi nesse momento que Mino recordou de seus tempos de enfrentamento com a ditadura militar, quando, revelou, entendeu com profundidade a serventia do jornalismo – se não para mais nada, para narrar as histórias daquele tempo horroroso, a partir do viés dos vencidos, daqueles que não tinham voz.


Mino contou que foi também durante os anos de chumbo que leu “Entre o passado e o presente”, da filósofa alemã Hannah Arendt. De forma bem resumida, na obra a pensadora analisa a verdade que cada um carrega consigo – “são nossas opiniões ou tentativas de interpretação”, diferenciou o jornalista, para em seguida acrescentar: “mas há uma verdade factual, contra a qual o jornalista não pode brigar”. Mino fez uma pausa e tomou um longo gole d’água. “Tomei água. Eis uma verdade factual. É a ela que o jornalista deve fidelidade canina. É mais um fundamento básico da profissão”. A partir do fato, o desafio é dar voz a todos os envolvidos, de maneira plural, sem preconceitos – e a opinião do repórter, admite Mino, pode até ser evidenciada, desde que honestamente anunciada como tal.


Para o diretor de redação de Carta Capital, no entanto, o jornalismo brasileiro não respeita essa premissa básica do buscar a verdade factual. “Omite quando convém ao dono do veículo, ao político, ao empresário. Isso quando não patrocina conscientemente a distorção, a invenção, a mentira. E dizia Hannah Arendt que, quando uma verdade vai ao fundo do mar, não pode mais ser recuperada”, lamentou. Por fim, Mino fez questão de dizer com muita convicção que o jornalista precisa ainda ser movido por candente espírito crítico, para fiscalizar os poderes – os donos do poder, como diria Raymundo Faoro- e todos eles, não apenas o político.


Um aluno na plateia perguntou: se o cenário será diferente no longo prazo, o senhor consegue avaliar de onde virão as transformações? Mino foi incisivo: não tem fórmulas mágicas. Mas reconheceu que as mudanças passam pela democratização, pela regulamentação e pelo controle social da mídia. “É procedimento absolutamente normal em outros países democráticos. É indispensável para definir limites e deveres”, afirmou. O problema, completou, é que os barões da mídia não querem nem pensar nessa hipótese e, sempre que o debate vem a público, saem gritando “estão querendo nos censurar, cercear a liberdade de expressão”. O governo então recua, acomoda-se, lamentou mais uma vez Mino. Para ele, é uma dinâmica semelhante àquela que resultou na criação da Comissão da Verdade. “É difícil acreditar que, do jeito como foi concebida, poderá mesmo revelar alguma coisa”. E fulminou, sem tergiversar: “O problema é que o poder, inclusive o petista, adora aparecer na TV Globo e dar entrevistas para as páginas amarelas da revista Veja”.


Sobre a revista semanal da editora Abril, que Mino Carta ajudou a idealizar e a criar, ainda no final dos anos 1960, em plena época de terror da ditadura, o jornalista não dourou a pílula: “Veja é hoje monstruosa, hedionda. Eu criei um monstro”. Para ilustrar, e mais uma vez provocado pela plateia, ele citou a recente matéria de capa sobre as “relações perigosas” do ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu. “Pois é, não tenho admiração divina alguma pelo senhor José Dirceu. Mas com aquele texto o que Veja conseguiu foi só imitar à perfeição o jornalismo feito por Rupert Murdoch. Mas o que esperar da Veja? É assim mesmo. É a Veja”, disparou.



segunda-feira, 4 de abril de 2011

MINO CARTA: IMPRENSA IMPLOROU PELA DITADURA


Mino Carta afirma que jornais imploraram pelo golpe militar


Da Redação


O jornalista Mino Carta afirmou em entrevista ao programa Provocações, da TV Cultura, que os donos de veículo de comunicação do País apoiaram o golpe militar de 1964. Em conversa com o apresentador Antônio Abujamra, na atração que foi exibida na noite desta terça-feira (29/3), o criador e diretor de redação da revista Carta Capital afirmou que a mídia imprensa apoiou o golpe militar de 1964.


“A imprensa nativa no fim de 1963 implorando pelo golpe de 64, que é uma das grandes desgraças brasileiras. Acho que a maior desgraça é a escravidão, três séculos de escravidão, mas essa é uma desgraça muito grande. Eles (donos dos veículos de comunicação) queriam que os ‘milicos’ chegassem e assumissem o poder, em nome deles”, disse Mino.


Ao ser questionado por Abujamra que, depois de implantada a ditadura militar no Brasil, a “censura entrou” na imprensa, o diretor da Carta Capital declarou que “todos os jornais queriam o golpe e conseguiram”. Mino ainda comentou que o único veiculo impresso que chegou a ser censurado foi O Estado de S. Paulo, mas de forma “branda”.


“O Estadão passou a sofrer censura, mas uma censura muito branda. Uma censura que autorizava o Estadão a publicar versos de Camões (…) ou então, as receitas de bolo no Jornal da Tarde. Os demais jornais não foram censurados”, declarou o fundador da revista Carta Capital.


Para Mino, dizer que os jornais brasileiros foram censurados durante o período de ditadura militar “é uma piada, uma mentira. Uma mentira grossa”.


segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

PALAVRA DE MINO CARTA, NA CARTA CAPITAL

Via blog Olhos do Sertão


Continuidade e Novidade – Dilma vai na esteira de Lula, mas também mostra seu próprio estilo



por Mino Carta.



Converso com Lula há mais de 33 anos, quando Lula era apenas apelido. Todas as qualidades dele saíram de São Bernardo e o Brasil aprendeu a conhecê-las e a admirá-las. E o mundo, até. Hoje ele gosta de falar de sua sucessora, de evocar o passado e de expor os sentimentos de quem tem de “desencarnar”. O verbo recorre em sua boca porque o esforço para adaptar-se à nova vida causa alguma ventania entre o fígado e a alma.

A respeito de Dilma, ele é o primeiro a reconhecer o quanto ela foi indispensável ao êxito do seu governo e a revelar ter visto nela a sua candidata ainda no final do primeiro mandato. O que, confesso, muito me agrada: foi quando me atirei a apostar nesta escolha e a escrever a respeito. A partir, para ser exato, do momento em que ela substituiu José Dirceu na Casa Civil. Ali, Dilma mostrou por completo a que viera.

Lula conta deste período episódios muito indicativos da personalidade da sucessora. Cabia a ela organizar as reuniões do ministério, pronta a interrompê-las ao meio da fala de um ministro, para dizer, em tom peremptório, embora pacato: “Presidente, não é nada disso, o senhor ministro está dourando a pílula, de verdade a situação é outra”. E desfiava então os fatos na sequência exata e fornecia a interpretação correta.

Tratou-se claramente de uma parceria afinadíssima, que de alguma forma se mantém, garantida, em primeiro lugar, pela continuidade. Hoje Lula se ri de quem imaginou seu retorno em 2014: ele não tem dúvidas sobre o excelente desempenho de Dilma, pelo qual ela se habilitará com todos os méritos à reeleição. A continuidade é certa, mas as situações mudam naturalmente, de sorte a justificar adaptações, retoques, acertos, esperados de um governo efetivamente novo e em harmonia com a personalidade de Dilma.
A presidenta exibe amiúde características que não se encaixam no estereótipo brasileiro, digamos assim. Senso de responsabilidade profundo, discrição extrema, entronização de uma pontualidade insólita nas nossas latitudes. Há jornalistas dispostos a prever mudanças na política externa em relação àquela de Lula. Apressam-se, creio eu. Aposto, isto sim, em definições mais nítidas na política dos Direitos Humanos, o que já permitiu a Dilma condenar ao mesmo tempo transgressões cometidas em Cuba e nos EUA.
(...)