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terça-feira, 11 de março de 2014

RUBENS PAIVA, PARA OS SAUDOSOS DA DITADURA:

No tempo da ditadura

Por MARCELO RUBENS PAIVA
 

“Como é que a gente faz hoje quando entra num táxi e o motorista diz que tempos bons eram os da ditadura?”, me perguntou o amigo Nirlando Beirão.
Diz que:
No tempo da ditadura, a gente não podia escrever sobre o tempo da ditadura, nem qualificar o regime como uma ditadura. No tempo da ditadura, ao invés de uma análise crítica sobre a ditadura, digo regime, neste espaço teria um poema de Camões ou uma receita de bolo, pois seria censurada.
Todo mundo que era contra a ditadura era comunista. Todos se tornaram suspeitos, subversivos em potencial. E muitos que, em 1964, conspiraram com os militares, na missão de impedir que comunistas tomassem o poder, e o Brasil se transformasse numa diabólica ditadura do proletário, perceberam a manobra e foram depois acusados de ligações com comunistas.
No primeiro ato da ditadura, o AI-1 (Ato Institucional Número 1), baixado pela Junta Militar em 9 de abril de 1964, cassaram os opositores dos comunistas, os trabalhistas: João Goulart, Leonel Brizola, Darcy Ribeiro, parte da bancada do PTB, partido fundado por Getúlio Vargas, como Almino Afonso e meu pai, Jânio Quadros, Miguel Arraes, o deputado católico Plínio de Arruda Sampaio, o economista Celso Furtado, o jornalista Samuel Weiner, até o presidente da Petrobras, marechal Osvino Alves. Nenhum deles era comunista.
Entre outros cassados, estavam membros da corporação que mais perseguições sofreu durante a ditadura: os próprios militares, como o general-de-brigada Assis Brasil, o chefe do Gabinete Militar, Luís Tavares da Cunha Melo, e os almirantes Cândido de Aragão e Araújo Suzano. Milhares de oficiais foram expulsos das Forças Armadas durante a ditadura.
Bem antes ditadura, o PCB (Partido Comunista do Brasil) já era ilegal, e seus líderes, eles, sim, comunistas, viviam na clandestinidade. A intenção do Golpe de 64 era impedir o avanço comunista no Brasil e restaurar a democracia em dois anos. Não demorou muito, o ex-presidente Juscelino Kubitschek, candidato à reeleição, foi cassado acusado de corrupção e colaborar com comunistas.
No primeiro teste eleitoral, em 1965, não foram eleitos os candidatos dos militares em Minas Gerais e Guanabara. Baixaram o AI-2 (Ato Institucional Número Dois). Partidos políticos foram extintos. Poder Judiciário sofreu intervenção. Foram reabertos processos de cassação. Carlos Lacerda, então aliado, dormiu conspirador e acordou subversivo.
O novo partido da situação, Arena, não engrenava. Iria ser derrotado nos Estados mais populosos. A paciência dos militares se esgotou: o AI-3 foi baixado em 1966, determinando que eleição de governadores seria indireta, executada por colégios eleitorais, e prefeitos das capitais, estâncias e cidades de segurança nacional seriam nomeados.
O AI-4, de 1966, revogou definitivamente a Constituição de 1946 e proclamou outra. O AI-5, de 1968, suspendeu as garantias constitucionais da Constituição que tinham acabado de promulgar. Despachos da presidência de República passaram a valer mais que leis. Congresso, Assembleias Legislativas e Câmeras dos Vereadores foram fechados por um ano. O Presidente podia decretar intervenção de Estados e Municípios. Estavam proibidas atividades e manifestação de natureza política e suspenso o direito de habeas corpus.
Finalmente, parte da sociedade civil que apoiou o Golpe percebeu que militares não sabiam negociar nem ser contrariados. Não têm intimidades com jogo político. Na essência, não praticam a democracia: obedecem sem questionar um comando, uma hierarquia imposta de cima para baixo.
Foram acusados de comunistas os subversivos dom Elder Câmara, dom Pedro Casaldáliga e dom Paulo Evaristo Arns, que se encontrara em 1964 em Três Rios com tropas do general Olimpio Mourão Filho, deflagrador do Golpe, para oferecer assistência religiosa.
Nos tempos da ditadura, não se discutiam os grandes investimentos. Militares construíram uma usina nuclear com tecnologia obsoleta, numa região de difícil evacuação, e duas estradas paralelas ao Rio Amazonas, a Transamazônica e a Perimetral Norte, que foram tomadas pela floresta anos depois, devastando nações indígenas. Estatizaram companhias telefônicas e de energia. Colaboraram para o desmantelamento da malha ferroviária brasileira.


Editores de livros, como Ênio da Silveira, foram presos. Jornalistas, como toda a redação do Pasquim, entre eles, Paulo Francis, foram presos. Até um escritor no início simpático ao Golpe, como Rubem Fonseca, foi censurado. Caetano Veloso e Gilberto Gil foram presos e expulsos do Brasil. Raul Seixas foi convidado a se retirar, depois de ironizar o regime com “sou a mosca que pousou na sua sopa”. Chico Buarque se exilou. Teatros foram depredados, atores espancados. Parte da classe teatral, como Zé Celso e Boal, foi embora. Glauber Rocha também se mandou.
O contrabando e o jogo do bicho se associaram a agentes da repressão e se fortaleceram. O crime organizado nasceu. A promiscuidade entre polícia e bandido, tema do filme Lúcio Flávio (Babenco), se consolidou na ditadura, que promoveu e anistiou depois torturadores. O Comando Vermelho surgiu num presídio da ditadura.
Ao terminar em março de 1985, a ditadura deixou uma inflação que virou hiper (a acumulada de 1984 foi de 223,90%), uma moeda desvalorizada (um dólar valia 4.160 cruzeiros), uma dívida externa que nos levou à moratória (FMI suspendeu em fevereiro de 1985 o crédito ao Brasil, que não cumpria as metas depois de sete tentativas). Outra herança: desmantelamento do ensino público.
O Brasil é governado há 20 anos por três subversivos acusados de comunistas pela ditadura: FHC, ex-professor da USP cassado e exilado, Lula, sindicalista cassado e preso, e Dilma, terrorista acusada de liderar uma organização clandestina que praticava a luta armada. Líderes do antigo PCB fundaram o PPS. Todos estão na legalidade e participam da vida democrática, como o PCB e seu racha, o PCdoB, parte da base aliada.
O Brasil talvez tenha sido vítima de uma das maiores farsas da História: nunca correu o risco de virar comunista.

 http://blogs.estadao.com.br/marcelo-rubens-paiva/no-tempo-da-ditadura/

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

LEMBRE-SE QUE A MÍDIA É GOLPISTA DESDE 1954. INFORME-SE! (I)

O oposicionismo impresso e a urgência da democratização informativa

Imagine se o governo Dilma e as forças políticas que o apoiam priorizassem, de verdade, uma política de democratização da comunicação no Brasil.





Beto Almeida (*)
Arquivo

No finalzinho de 2013, o jornalista Eugenio Bucci, editorialista do Estadão, escreveu artigo rejeitando a tese que considera a  atuação da mídia comercial brasileira hoje, a imprensa em particular,  como “um partido de oposição”. O texto de Bucci  já recebeu brilhante crítica do jornalista e professor Gabriel Priolli, publicada no Viomundo. Como o tema é muito vasto, além dos argumentos cristalinos levantados por Priolli,  os quais endosso, cabem outros olhares.

Pode-se dizer que há vários pontos de contatos entre os argumentos de Bucci com os da ex-presidente da Associação Nacional dos Jornais, Judith Brito, que, em 2010, contrariando o editorialista do Estadão, analisando,  de forma bem direta o desempenho da imprensa, confessou:“obviamente, esses meios de comunicação estão fazendo de fato a posição oposicionista deste país, já que a oposição está profundamente fragilizada. E esse papel de oposição, de investigação, sem dúvida nenhuma incomoda sobremaneira o governo [Lula]”.
 
 
Ao contrário de Judith, para tentar provar que a imprensa no Brasil não atua como um partido político, Bucci recorre ao caso venezuelano, quando, em 2002, um golpe de estado, organizado nas dependências de uma das maiores redes de tv local, tirou Chávez do poder por 47 horas, sequestrando-o, preparando, inclusive, sua eliminação física, o que apenas não ocorreu face o levante cívico-militar em defesa da democracia. Chávez voltou nos braços do povo e foi reeleito mais duas vezes. Mas, as conclusões de Bucci sobre esta experiência são curiosas. Ele afirma que “se os meios de comunicação tivessem passado a operar como partido unificado, com o intento de sabotar a administração pública, o que nós teríamos no Brasil seria um abalo semelhante ao que se viu na Venezuela em 2002”.  A história nos ajuda a lançar argumentos neste interessantíssimo e grave debate, que, certamente, não terá acolhida plural nas páginas do Estadão.

Petrobrás: atacada desde o seu nascedouro

Partindo do princípio que o exercício de crítica à imprensa é imprescindível e democrático, tanto quanto o direito dos meios de criticar os governos e suas políticas, vale ressaltar que não há absolutamente nenhum cerceamento ao trabalho dos meios que, como afirmou Judith Brito, estão fazendo a “posição oposicionista neste país”. Mas, vale lembrar também no dia em que o Presidente Vargas sancionou a criação da Petrobrás, o Estadão publicou editorial sustentando que era uma loucura criar uma empresa estatal de petróleo num país em que, sabidamente, dizia o texto, não havia petróleo. O problema todo era a opção por uma empresa estatal.  Como classificar uma posição editorial como esta, com plena sintonia com a oposição estrangeira e a oposicionista interna à criação da Petrobrás? Era uma crítica jornalística ou era uma oposição ideologicamente cega ao nacionalismo de Vargas?

Mas, esta oposição editorial sistemática já havia se expressado,  muito especialmente,  durante a fase em que o governo Vargas regulamentou os direitos trabalhistas e pela primeira vez os trabalhadores passam a ter uma carteira de trabalho, o emprego formal, jornada de trabalha delimitada, descanso semanal, férias, conquistas que sempre, sempre foram afrontadas pelo pensamento oligárquico exalado pelo Estadão. Era uma crítica jornalística normal ou uma defesa intransigente da tese de todo direito ao capital e nenhum direito ao trabalho?

Também é preciso lembrar que aquilo que Bucci reconhece ter ocorrido na Venezuela, a quartelada mediática, já havia ocorrido aqui no Brasil. Primeiramente, em 1954, quando os jornais, rádios e a iniciante televisão  -  com sustentação financeira dos anúncios de empresas transnacionais  -  juntaram-se num grito-campanha de denúncias contra o suposto e nunca provado  “mar de lama de Vargas”, resultando no dramático suicídio presidencial. A fúria popular fez os golpistas recuarem, , mas, por apenas  10 anos. Até mesmo o jornal Tribuna Popular, do PCB,  que naquele traumático dia 24 de agosto de 1954 publicava uma entrevista de Prestes pedindo a renúncia de Vargas, tal como todos os demais jornais, à exceção do Última Hora, foi alvo do legítimo e espontâneo sentimento popular, com os dirigentes comunistas mandando recolher, às pressas, os jornais das bancas. 

Censura atinge até a Carta Testamento de Vargas

Apesar da gigantesca manifestação popular de apoio a Vargas, os que tramaram o golpe, conseguiram o cúmulo de censurar novas leituras radiofônicas da Carta Testamento de Vargas, um dos principais documentos da História do Brasil!,  pois um dispositivo militar da Aeronáutica ocupou a Rádio Nacional.  Assim, é assustador ler Bucci afirmar que “no Brasil não houve nada parecido”. Não houve uma sabotagem contra a administração pública? Aqui o presidente Vargas suicida-se, lá na Venezuela o presidente Chávez, igualmente eleito pelo voto popular, é sequestrado e permanece preso por 47 horas, até que o levante popular e militar democrático derrota os golpistas.

 
Aqui, na madrugada de 24 de agosto de 1954, na reunião do Catete, Tancredo Neves, jovem ministro da justiça de Vargas, havia proposto a resistência, inclusive armada, se preciso fosse, lembrando a Vargas que , em outubro de 1930, ele  mesmo havia sido protagonista de um levante popular armado. Vargas preferiu o sacrifício. Gesto que inspirou o belo livro “O dia em que Getúlio Vargas matou Allende”, de Flávio Tavares, que testemunhou uma conversa entre Mao Tsé Tung e o então senador Salvador Allende, em Pequim, sobre Vargas. Em 1973, Allende preferiu resistir em La Moneda, cumprindo a profecia de Vargas que dissera “Só saio do Catete morto!” Chávez, em 2002,  orientado telefonicamente por Fidel, optou, corretamente,  por não se imolar e sim, ganhar tempo, contando  com a resistência democrática, militar e povo, unidos em defesa do governo legítimo. Brizola, na primeira tentativa de golpear a Goulart, mobilizou o povo, distribuiu armas na praça e organizou a Campanha da Legalidade, em 1961. Um gesto para a história, com bravura tal que fez recuar os golpistas. Muito ainda devemos  refletir e aprender daquele indomável Brizola com uma metralhadora no ombro e um microfone nas mãos! 
CONTINUA
http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Midia/O-oposicionismo-impresso-e-a-urgencia-da-democratizacao-informativa/12/30024