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terça-feira, 1 de abril de 2014

MAIS UM TORTURADOR RECEBE "ESCRACHO" DA JUVENTUDE COM CAUSA

Jovens 'escracham' ex-agente da ditadura em SP

01 de abril de 2014 | 10h 29
Agência Estado
Integrantes do movimento Jovens do Levante Popular da Juventude realizaram um ato no início da manhã desta terça-feira, 1º, em frente à casa do delegado aposentado da Polícia Civil Aparecido Laerte Calandra.
Conhecido como "Capitão Ubirajara", Calandra atuou por quase dez anos no DOI-Codi, centro de repressão e tortura da ditadura militar. O ato, definido pelo grupo como ''escracho'', faz parte de ações para lembrar os 50 anos do golpe que depôs o presidente João Goulart.
"O escracho tem como objetivo não deixar que a juventude brasileira esqueça o dia em que se completa os 50 anos do golpe militar, que submeteu nosso país a uma ditadura de mais de 20 anos e denunciar todos os abusos e violências sofridas pelos militantes", diz o grupo, em nota. Os manifestantes picharam a casa do ex-agente com dizerem como "torturador" e "assassino", e deixaram um tecido pregado ao portão no qual pedem "memória, verdade e justiça".
O Levante Popular da Juventude se apresenta como uma organização de jovens militantes que discute formas de mobilização e transformação social.
Nessa segunda, 31 de março, um ato parecido foi organizado em frente à casa do coronel reformado do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra, em um bairro nobre de Brasília. Os participantes da manifestação pregaram cartazes com fotos de pessoas que foram mortas e torturadas nas dependências do temido DOI-CODI, em São Paulo, durante o comando de Ustra, nos anos 1970. 
http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,jovens-escracham-ex-agente-da-ditadutra-em-sp,1147720,0.htm

segunda-feira, 31 de março de 2014

MÍDIA ESCONDE SEU PASSADO PRÓ-DITADURA

A imprensa e o golpe de 64


Folha, Globo e outros jornais estão fazendo especiais sobre os 50 anos do Golpe.
É uma tragédia e ao mesmo tempo uma comédia.
Qualquer esforço sério para falar do Golpe tem que tratar do papel crucial da mídia. O que jornais como o Globo, a Folha, o Estadão e tantos outros fizeram, portanto.
Alguma linha sobre o assunto?
Pausa para rir, ou para chorar. Você escolhe.
1964 não teria existido sem a imprensa, este é um fato doído para nós, jornalistas.
Os jornais construíram um Brasil fantasioso – de mentira, sejamos diretos – que chancelaria a ação dos militares.
Como mostrou o jornalista Mário Magalhães em seu blog nestes dias, o presidente João Goulart tinha alta popularidade em março de 1964.
Numa pesquisa do Ibope, não divulgada à época e nem por muitos anos, ele aparecia bem à frente na lista de intenções de voto para as eleições presidenciais de 1965.
Como não seria popular um presidente que tinha uma agenda pró-povo como Jango? Entre outras coisas, em seu governo foi criado o 13.o salário, que o Globo – numa hoje amplamente exposta e debochada primeira página – tratou como calamidade.
Mas o noticiário criava a sensação de que os brasileiros em massa eram contra Jango. O Globo conseguiu dizer que a democracia fora “restaurada” com o golpe que mataria tantas pessoas e faria de seu dono o homem mais rico do país.
Mesmo o grande jornal que mais tarde foi uma trincheira na oposição aos militares – o extinto Correio da Manhã – produziu duas manchetes que entrariam tristemente na história.
Uma delas dizia “Basta!” e a outra “Fora!” Como maus exemplos prosperam, a Veja copiaria o Correio da Manhã na capa em que, décadas depois, anunciou a saída de Collor. (E sonharia por oito anos repetir a cópia na gestão de Lula.)
O apoio da mídia à ditadura se manteria enquanto os militares foram fortes para beneficiar seus donos.
A campanha da Folha pelas eleições diretas só veio quando a ditadura cambaleava: politicamente, a insatisfação galopava, e a economia era um caos insustentável.
Antes, Octavio Frias se comportara de maneira bem diferente. Cedera carros da Folha para a caça a opositores da ditadura, o que o levou a temer ser justiçado como outro empresário que fez o mesmo, Henning Albert Boilesen, da Ultragás.
Frias mostrou também sua combatividade seletiva quando, depois de uma crônica de Lourenço Diaféria que dizia que o povo mijava na estátua do Duque de Caxias, patrono do Exército, recebeu uma ordem de um general para afastar o diretor de redação Claudio Abramo.
Afastou – não um mês, uma semana, um dia depois. Afastou na hora. Covardemente, ainda mandou retirar seu próprio nome – dele, Frias — da primeira página do jornal como “diretor responsável”.
Pôs o de Boris Casoy, escolhido para substituir Claudio por causa de seus notórios vínculos com a ditadura. Boris foi integrante do Comando de Caça aos Comunistas, o CCC. Não sabia escrever, mas isso era um detalhe.
Depois, quando a ditadura desabava, Frias autorizou valentemente a campanha das Diretas Já, tão enaltecida como nascida da grandeza de Frias ainda hoje por jornalistas de renome como Clóvis Rossi.
Não era fácil se jornalista naqueles dias, especialmente se você tivesse convicções.
Meu pai – Emir Macedo Nogueira – era editorialista da Folha em meados dos anos 60, quando eclodiu uma greve de fome entre os presos políticos em São Paulo.
Frias mandou meu pai escrever um editorial que afirmaria não haver presos políticos, só prisioneiros comuns.
Papai se recusou, e foi tirado da posição. Por que Frias não o mandou embora, às vezes me pergunto. Imagino que sejam duas as explicações: a primeira, papai tinha um talento excepcional. A segunda: uma demissão significaria que Frias levara a perseguição política para o interior da Folha.
Prova de quanto era dura a vida na redação, o editorial acabou sendo escrito por Claudio Abramo, um grande jornalista de esquerda, cheio de amigos entre os presos políticos em greve de fome.
Papai na Folha na década de 70: ele se recusou a escrever um editorial que afirmaria que não havia presos políticos
Papai na Folha na década de 70: ele se recusou a escrever um editorial que afirmaria que não havia presos políticos
Você pode imaginar o sofrimento que foi para Claudio escrever o que escreveu naquele dia.
Quando penso no papel desempenhado pela imprensa no golpe, tenho vergonha de ser jornalista. Mas aí me lembro de como o DCM é diferente de tudo aquilo e sigo adiante, para combater o bom combate.
Paulo Nogueira
Sobre o Autor
O jornalista Paulo Nogueira é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.
http://www.diariodocentrodomundo.com.br/a-imprensa-e-o-golpe-de-64/

MAIS PROVAS DAS MENTIRAS DE OLAVO CARVALHO: OS EUA DETRÁS DO GOLPE DE 64

Golpe Militar e Estados Unidos: manipulação e a farsa do “perigo” comunista



O documentário “O dia que durou 21 anos” revela detalhes, documentos e gravações a respeito da efetiva participação do Governo dos Estados Unidos no golpe militar de 1964.
Parece ser um absurdo, mas a recusa de João Goulart em atender exclusivamente aos mandamentos do Governo americano deflagrou uma farsa jamais vivida na história do Brasil.
Em que pese saber que muitos já sabem dessa história, gostaria de retratar importantes passagens dessa trama política, tendo em vista o aniversário de 50 anos do golpe militar e a fim de colaborar para que os jovens não se esqueçam da época mais trágica da história do Brasil.
Em nome do capitalismo estatal de um país só, muito dinheiro foi gasto para alienar a população, destruir serviços públicos como educação, saúde e segurança pública, consolidar oligarquias hereditárias, fechar o Congresso Nacional, cassar mandatos de parlamentares, suspender direitos fundamentais e matar pessoas.
Diante disso, o texto abaixo foi produzido para que os leitores do meu blog compreendam de uma forma sistemática toda a conjuntura retratada em 2 documentários: “O dia que durou 21 anos” e “Dossiê Jango”.
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BRASIL: UM PAÍS QUE CRESCIA
 Naquela época, o Brasil sustentava bons índices de crescimento na economia, na ciência, nos serviços públicos e na tecnologia, tendo tudo para ser uma potência mundial em 30 ou 40 anos.
Apesar da alta inflação, os governos de Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart foram substanciais para o crescimento econômico e para a busca da distribuição de renda.
Porém, quis o destino que uma enorme avalanche detonasse todos os projetos consolidados de crescimento econômico e justiça social do Brasil: o interesse econômico dos Estados Unidos sob a velha alegação da liberdade, mancomunado com a ganância das oligarquias brasileiras.
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INTERESSE ECONÔMICO DOS ESTADOS UNIDOS PELO BRASIL
João Goulart construía plenas relações capitalistas em todos os lugares do mundo, a exemplo dos países latino-americanos, africanos e asiáticos.
Ainda como vice-presidente, em viagem à China em agosto de 1961, João Goulart já tinha a visão de que a China seria um parceiro econômico forte.
Em discurso naquele país, Goulart festejava: “Viva a amizade cada vez mais estreita entre China e Brasil. Viva a amizade dos povos asiáticos, africanos e latino-americanos”.
O grande problema era que a estupidez dos Estados Unidos não tolerava qualquer política externa do Brasil que não fosse dirigida sob o comando de Washington.
Quando João Goulart assumiu a Presidência, os Estados Unidos exigiam que o Brasil rompesse relações com países socialistas, sendo que não iriam admitir em hipótese alguma qualquer governo na América Latina de caráter socialista, mesmo se tivesse que usar forças bélicas para tanto.
A ousadia dos americanos era tanta que, durante o mandato de Goulart, Robert Kennedy veio com uma lista de ministros civis brasileiros subordinados ao governo americano para que Jango nomeasse. Como mantinha uma política externa independente, o pedido foi recusado.
Nesse contexto, o documentário “O dia que durou 21 anos”, mostra uma gravação em que o então Presidente dos Estados Unidos John Kennedy declara que
“Como Presidente dos Estados Unidos, estou determinado a garantir o sucesso de nosso sistema e vencerei este desafio a qualquer custo”
Relatam os historiadores que, quando Kennedy foi assassinado, estava com uma política hostil ao Brasil, projeto que foi seguido à risca por seu sucessor Lyndon Johnson.
Diante disso, começa a ser consolidado um enorme aparato político, midiático e até religioso para executar o projeto que iria subordinar o Brasil aos interesses econômicos exclusivos dos Estados Unidos.
O documentário ainda mostra um depoimento do deputado Bocayuva Cunha que relata que empresas americanas vinham para o Brasil, multiplicavam seu capital em 200, 300 e até mesmo 1.000% ao ano e não revertiam os dividendos para o Brasil.
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REFORMA AGRÁRIA: A SENHA PARA A CAMPANHA ANTI-COMUNISTA
É visível que atualmente boa parte da classe média e alta não vê com bons olhos qualquer medida governamental a favor de pessoas pobres.
Imaginem isso 50 anos atrás?
Não é de se estranhar, mas, naquela época, movimento organizado de trabalhadores urbanos ou rurais era considerado comunismo e subversão.
Nesse embalo, a Reforma Agrária pretendida por João Goulart era uma verdadeira agressão à sociedade daquela época, que passou a interpretar tal projeto como comunista, deflagrando a oportunidade para que a oposição entrasse em ação.
Portanto, defender a Reforma Agrária como condição de desenvolvimento do país era uma afronta às forças dominantes.
Nesse mister, o leitor pode observar de pronto uma farsa: a Reforma Agrária concedia indenização aos antigos proprietários e fornecia títulos de PROPRIEDADE aos novos assentados, atitudes incompatíveis com qualquer doutrina comunista.
Além disso, Goulart também era proprietário de grandes terras e não há evidência histórica alguma de que havia tratativas comunistas em curso.
Simplesmente, ele não quis seguir a cartilha dos Estados Unidos.
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AMERICANOS BANCAM CAMPANHA DE POLÍTICOS BRASILEIROS NAS ELEIÇÕES DE 1962
Por meio de um instituto de faixada chamado IBADE (Instituto Brasileiro de Ação Democrática), financiado pela CIA norte-americana e que foi criado para combater políticos populistas como Juscelino Kubitschek, houve direcionamento de capital para financiar os candidatos contrários a João Goulart e anticomunistas em geral, que concorreriam às eleições legislativas e para o Governo de 11 Estados.
Assim, nas eleições de 1962, o governo americano (por meio de sua embaixada) passou a financiar as campanhas eleitorais de deputados federais, estaduais e senadores no Brasil.
Atualmente, a relação nominal de todos os políticos que receberam dinheiro do IBADE parece ser coisa “guardada a sete chaves”.
Em entrevista ao documentário, Plínio de Arruda Sampaio relata que foi abordado por um desses agentes que oferecia dinheiro para a campanha de 1962 em troca de um apoio à democracia. Segundo ele, teria recusado, já que para defender a democracia não precisa de dinheiros dos americanos.
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Segundo jornais da época, o IBAD financiou 250 deputados federais, 8 governadores e 600 deputados estaduais. Houve uma tentava de CPI para investigar o caso, comandada pelo deputado Rubens Paiva que iria morrer tempos depois na prisão. Seu corpo desapareceu.
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CAMPANHA ANTI-COMUNISTA ENGANA A POPULAÇÃO
O Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), fundado em 29 de novembro de 1961, por Augusto Trajano de Azevedo Antunes (ligado à Caemi) e Antônio Gallotti (ligado à Light), serviu como um dos principais catalisadores do pensamento antiGoulart.
O IPES funcionava na avenida Rio Branco no Rio de Janeiro e foi montado como “o ovo da serpente para o golpe militar”, cuja função era montar propagandas políticas, financiando TVs, rádios, revistas e jornais para criticar o Presidente João Goulart e passar uma ideia de conspiração comunista, a fim de criar instabilidade para que a população aceitasse de maneira “racional e bem orientada” o golpe militar.
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O esquema era muito bem orquestrado. Muitas das radionovelas, filmes de cinema e programas de televisão da época, tinham mensagens explícitas e implícitas a favor da absorção pelos brasileiros dos valores estadunidenses.
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LINCOLN GORDON: O EMBAIXADOR E ARTICULADOR DO GOLPE
Lincoln Gordon embaixador dos Estados Unidos do Brasil tornou-se uma das figuras mais importantes da política brasileira.
Ele era economista e tinha exercido sua carreia acadêmica em Harvard escrevendo sobre o Brasil.
Quando foi nomeado para o cargo de Embaixador, seu objetivo era impedir que um governo de esquerda se consolidasse no Brasil.
Em seus telefonemas e relatórios enviados ao Governo americano, Lincoln Gordon convenceu os americanos de que a política de Reforma Agrária implantada por Jango e Brizola iriam levar o Brasil ao comunismo.
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Mesmo quando os funcionários da embaixada americana questionavam Gordon a respeito dessa futurologia equivocada, ele manteve o teor dos relatórios.
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ESTADOS UNIDOS ENVIAM PADRE PARA REZAR COM OS FIÉIS BRASILEIROS PELO ANTI-COMUNISMO
O exemplo mais notório do uso da religião contra o presidente João Goulart foi a manipulação perpetrada pelo Padre Patrick Peyton, pároco estadunidense de origem irlandesa conhecido por sua pregação anticomunista.
Chegando ao Brasil no final de 1963, o Padre Peyton passou a utilizar politicamente o lema “A família que reza unida permanece unida”, promovendo uma série de eventos públicos de massa para os fiéis brasileiros, inclusive a “Missa pela Salvação da Democracia” realizada na Marcha da Família com Deus pela Liberdade, que reuniu meio milhão de pessoas em março de 1964.
Segundo o site Wikipédia, “anos mais tarde, Peyton foi apontado por historiadores norte-americanos como agente da CIA, especialista em levantar as massas católicas contra o comunismo ateu em nome da Virgem Maria”.
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A INVASÃO MILITAR AMERICANA NO BRASIL
Seguindo a risca a famosa “Diplomacia do canhão”, Lincoln Gordon solicita o envio de tropas navais americanas para o Brasil, a fim de apoiar os militares que queriam tirar Goulart do poder.
Essa atitude foi importante para encorajar os militares comandados por Mourão Filho, que ordenou que as tropas da IV Divisão de Infantaria que comandava em Juiz de Fora seguissem para ocupar o Estado da Guanabara, atual cidade do Rio de Janeiro, na madrugada do dia 1º de abril de 1964.
Como não pretendia ver derramamento de sangue com as tropas americanas invadindo o Brasil, João Goulart deixou Brasília e foi para o Rio Grande do Sul.
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ATITUDE SEM PÉ E NEM CABEÇA: OPOSIÇÃO DECLARA NOVO GOVERNO
  Como João Goulart não estava em Brasília, o Presidente do Congresso Nacional Aureo de Moura Andrade, numa atitude contrária à Constituição, no dia 02 de abril de 1964, declarou vaga a Presidência da República, dando posse interina ao deputado Ranieri Mazzilli (Presidente da Câmara dos Deputados), na Presidência da República.
Imediatamente, a embaixada dos Estados Unidos liga para Washington que, de uma forma extremamente rápida, reconhece o novo governo de Mazzili, sem considerar que a transição foi ilegal e que Goulart não havia renunciado à Presidência.
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O NOVO PRESIDENTE DO BRASIL AMAVA OS ESTADOS UNIDOS
Convoca-se eleição indireta para a Presidência do Brasil, oportunidade em que deveria estar no cargo alguém que garantisse que os interesses dos Estados Unidos fossem preservados. Segundo a embaixada dos Estados Unidos, Castelo Branco era a pessoa ideal para ocupar o cargo, já que amava a liberdade e nutria admiração pelos Estados Unidos, conforme se observa em documentação abaixo:
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DESDOBRAMENTOS
 As demais consequências da ditadura militar são bem conhecidas: militares e parlamentares foram cassados, extinguiram partidos políticos, cancelaram a eleição direta para Presidente da República, decretaram o recesso do Congresso Nacional, direitos fundamentais foram suspensos, torturas, mortes etc
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MULTINACIONAIS APOIARAM O AI-5
Multinacionais se alinharam a forças torturadoras do Governo brasileiro para a decretação do AI-5.
A Câmara Americana de Comércio em São Paulo apoiou incondicionalmente o AI-5, sob a alegação de que tais medidas eram extremamente necessárias para garantir a estabilidade econômica e os investimentos das multinacionais.
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GRUPOS DE RESISTÊNCIA PÓS-GOLPE
Lógico que existiam grupos de resistência, e dentre eles, alguns realmente tinham a intenção de implantar o comunismo no Brasil.
Porém, nunca tiveram força política alguma e jamais representariam ameaça real aos ditadores.
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CONCLUSÕES
Nunca houve, por parte do Governo João Goulart, intenção de implantar o comunismo no Brasil.
Realmente existia preocupação dos Estados Unidos com a implantação do comunismo soviético no Brasil, mas isso não estava em sintonia com a realidade dos fatos.
Essa farsa foi montada para justificar o golpe, com apoio de boa parte da oligarquia do Brasil que, no regime militar, enriqueceu como nunca na história.
Assim, o motivo do golpe resume-se em duas palavras muito conhecidas do cidadão brasileiro: PODER e DINHEIRO.

OTHONIEL PINHEIRO NETO
Doutorando em Direito pela Universidade Federal da Bahia
Mestre em Direito pela Universidade Federal de Alagoas
Especialista em Direito Processual, bem como em Direito Eleitoral
Corregedor Geral da Defensoria Pública do Estado de Alagoas
http://reporteralagoas.com.br/novo/?p=75277

quinta-feira, 27 de março de 2014

COMO A VELHA MÍDIA APOIOU O GOLPE DE 64

A MÍDIA E O GOLPE MILITAR DE 1964

LIGADO .
A próxima semana, no dia 1º de abril, marca os 50 anos do fatídico golpe civil-militar de 1964. Na ocasião, o imperialismo estadunidense, os latifundiários e parte da burguesia nativa derrubaram o governo democraticamente eleito de João Goulart. Naquela época, a imprensa teve papel destacado nos preparativos do golpe. Na sequência, muitos jornalões continuaram apoiando a ditadura, as suas torturas e assassinatos. Outros engoliram o seu próprio veneno, sofrendo censura e perseguições.
Por Altamiro Borges, em seu blog
Nesta triste data da história brasileira, vale à pena recordar os editoriais dos jornais burgueses – que clamaram pelo golpe, aplaudiram a instalação da ditadura militar e elogiaram a sua violência contra os democratas. No passado, os militares foram acionados para defender os saqueadores da nação. Hoje, esse papel é desempenhado pela mídia privada, que continua orquestrando golpes contra a democracia. Daí a importância de relembrar sempre os seus editorais da época:
O golpismo do jornal O Globo
“Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares que os protegeram de seus inimigos. Este não foi um movimento partidário. Dele participaram todos os setores conscientes da vida política brasileira, pois a ninguém escapava o significado das manobras presidenciais”. O Globo, 2 de abril de 1964.
“Fugiu Goulart e a democracia está sendo restaurada..., atendendo aos anseios nacionais de paz, tranqüilidade e progresso... As Forças Armadas chamaram a si a tarefa de restaurar a nação na integridade de seus direitos, livrando-a do amargo fim que lhe estava reservado pelos vermelhos que haviam envolvido o Executivo Federal. O Globo, 2 de abril de 1964.
“Ressurge a democracia! Vive a nação dias gloriosos... Graças à decisão e ao heroísmo das Forças Armadas que, obedientes a seus chefes, demonstraram a falta de visão dos que tentavam destruir a hierarquia e a disciplina, o Brasil livrou-se do governo irresponsável, que insistia em arrastá-lo para rumos contrários à sua vocação e tradições. Como dizíamos, no editorial de anteontem, a legalidade não poderia ter a garantia da subversão, a ancora dos agitadores, o anteparo da desordem. Em nome da legalidade não seria legítimo admitir o assassínio das instituições, como se vinha fazendo, diante da Nação horrorizada”. O Globo, 4 de abril de 1964.
“A revolução democrática antecedeu em um mês a revolução comunista”. O Globo, 5 de abril de 1964.
Conluio dos jornais golpistas
“Minas desta vez está conosco... Dentro de poucas horas, essas forças não serão mais do que uma parcela mínima da incontável legião de brasileiros que anseiam por demonstrar definitivamente ao caudilho que a nação jamais se vergará às suas imposições”. O Estado de S.Paulo, 1º de abril de 1964.
“Escorraçado, amordaçado e acovardado, deixou o poder como imperativo de legítima vontade popular o Sr João Belchior Marques Goulart, infame líder dos comuno-carreiristas-negocistas-sindicalistas. Um dos maiores gatunos que a história brasileira já registrou, o Sr João Goulart passa outra vez à história, agora também como um dos grandes covardes que ela já conheceu”. Tribuna da Imprensa, 2 de abril de 1964.
“Desde ontem se instalou no país a verdadeira legalidade... Legalidade que o caudilho não quis preservar, violando-a no que de mais fundamental ela tem: a disciplina e a hierarquia militares. A legalidade está conosco e não com o caudilho aliado dos comunistas”. Jornal do Brasil, 1º de abril de 1964.
“Golpe? É crime só punível pela deposição pura e simples do Presidente. Atentar contra a Federação é crime de lesa-pátria. Aqui acusamos o Sr. João Goulart de crime de lesa-pátria. Jogou-nos na luta fratricida, desordem social e corrupção generalizada”. Jornal do Brasil, 1º de abril de 1964.
“Pontes de Miranda diz que Forças Armadas violaram a Constituição para poder salvá-la”. Jornal do Brasil, 6 de abril de 1964.
“Multidões em júbilo na Praça da Liberdade. Ovacionados o governador do estado e chefes militares. O ponto culminante das comemorações que ontem fizeram em Belo Horizonte, pela vitória do movimento pela paz e pela democracia foi, sem dúvida, a concentração popular defronte ao Palácio da Liberdade”. O Estado de Minas, 2 de abril de 1964.
“A população de Copacabana saiu às ruas, em verdadeiro carnaval, saudando as tropas do Exército. Chuvas de papéis picados caíam das janelas dos edifícios enquanto o povo dava vazão, nas ruas, ao seu contentamento”. O Dia, 2 de abril de 1964.
“A paz alcançada. A vitória da causa democrática abre o País a perspectiva de trabalhar em paz e de vencer as graves dificuldades atuais. Não se pode, evidentemente, aceitar que essa perspectiva seja toldada, que os ânimos sejam postos a fogo. Assim o querem as Forças Armadas, assim o quer o povo brasileiro e assim deverá ser, pelo bem do Brasil”. O Povo, 3 de abril de 1964.
“Milhares de pessoas compareceram, ontem, às solenidades que marcaram a posse do marechal Humberto Castelo Branco na Presidência da República... O ato de posse do presidente Castelo Branco revestiu-se do mais alto sentido democrático, tal o apoio que obteve”. Correio Braziliense, 16 de abril de 1964.
Apoio à ditadura sanguinária
“Um governo sério, responsável, respeitável e com indiscutível apoio popular, está levando o Brasil pelos seguros caminhos do desenvolvimento com justiça social – realidade que nenhum brasileiro lúcido pode negar, e que o mundo todo reconhece e proclama”. Folha de S.Paulo, 22 de setembro de 1971.
“Vive o País, há nove anos, um desses períodos férteis em programas e inspirações, graças à transposição do desejo para a vontade de crescer e afirmar-se. Negue-se tudo a essa revolução brasileira, menos que ela não moveu o país, com o apoio de todas as classes representativas, numa direção que já a destaca entre as nações com parcela maior de responsabilidades”. Jornal do Brasil, 31 de março de 1973.
“Participamos da Revolução de 1964 identificados com os anseios nacionais de preservação das instituições democráticas, ameaçadas pela radicalização ideológica, greves, desordem social e corrupção generalizada”. Editorial de Roberto Marinho, O Globo, 7 de outubro de 1984.
http://www.baraodeitarare.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=467:a-midia-e-o-golpe-militar-de-1964&catid=12&Itemid=185

quarta-feira, 26 de março de 2014

FHC ADMITE: JOÃO GOULART SERIA REELEITO EM 65, SEM O GOLPE

Para ex-presidente FHC, Jango se reelegeria em 1965


Fernando Henrique Cardoso fez a previsão de que o ex-presidente João Goulart, o Jango,  se reelegeria em 1965 (quando haveria eleição presidencial se não tivesse havido o rompimento institucional) ao participar no Sesc Consolação, em São Paulo, de seminário sobre os 50 anos do golpe civil-militar de 1964, promovido pelo CEBRAP, centro que ele fundou em 1975
O ex-presidente da República tucano adiantou não saber se foram realizadas pesquisas de opinião na época, que confirmassem sua previsão. Foram e nós a colocamos aqui, ao final desta nota. A participação do ex-presidente no seminário serviu para ele evocar lembranças pessoais e análise política daquele período.
Brasil dividido
FHC lembrou, por exemplo, que naqueles dias de 1964, a sociedade brasileira estava dividida e incertezas marcaram os dias que antecederam o golpe a 1º de abril. Observou que no dia 13 de março, quando o presidente Jango anunciou seu programa de reformas de base no comício da Central do Brasil, ele passou pela Zona Sul carioca e viu velas acesas em quase todas as janelas. “Sinal das apreensões da classe média”, completou, temerosa quanto ao comunismo e o perigo vermelho tão disseminados então pelos golpistas e pela mídia.
No 13 de março, recordou, ele passou pelo comício – mas não participou -, impressionou-se com a “enorme” multidão reunida em apoio ao presidente Jango e no trem encontrou-se com personalidades da esquerda. A confusão era tanta no país que muitos dos seus interlocutores naquela viagem acreditavam que o golpe seria dado pelo presidente, e não pelos militares. Já em São Paulo, descobriu que vários professores de esquerda da USP (onde ele também lecionava) articulavam um manifesto contra o governo.
FHC reiterou o que disse e a Folha de S.Paulo publicou 2ª pp: nem os militares tinham certeza do sucesso do seu golpe. A posição do general Amaury Kruel (compadre de Jango), comandante do II Exército, era desconhecida e o então chefe do Estado Maior das Forças Armadas (EMFA), Castello Branco, era vista como legalista. O marechal Castelo foi o 1º presidente da ditadura, governando de abril/64 a março de 67.
Proliferavam as avaliações equivocadas
O Partido Comunista Brasiloeiro (PCB) julgava que os industriais se opunham ao capitalismo americano; seu secretário-geral, Luís Carlos Prestes, dissera semanas antes que eles já tinham o governo, faltava o poder; o sociólogo Hélio Jaguaribe, do PSDB.  julgava que o regime tinha como objetivo a desindustrialização; e o economista Celso Furtado (ministro nos governos Jango e Sarney), que o regime só duraria dois anos. De acordo com as reflexões de FHC expostas ontem, demorou-se a entender o que tinha acontecido.
Há poucos dias o blog do Luís Nassif publicou pesquisas IBOPE realizadas até no mês em que ocorreu o golpe. Nesta semana, também a Carta Capital  fala sobre elas, junto com uma entrevista do historiador Luiz Antônio Dias. Estas pesquisas foram doadas pelo Instituto à UNICAMP. O professor tem feitos estudos e publicado trabalhos sobre elas.
Números e índices publicados por Nassif
Transcrevemos, abaixo, o trecho em que o Nassif publicou números e percentuais da pesquisa. como diz ele “os números são impressionantes”:
· Em junho de 1963, Jango era aprovado por 66% da população de São Paulo, desempenho superior ao do governador Adhemar de Barros (59%) e do prefeito Prestes Maia (38%).
· Pesquisa de março de 1964 revela que, caso fosse candidato no ano seguinte, Goulart teria mais da metade das intenções de voto na maioria das capitais pesquisadas. Apenas em Fortaleza e Belo Horizonte, Juscelino Kubitschek tinha percentuais maiores
· Havia amplo apoio à reforma agrária, com um índice superior a 70% em algumas capitais.
· Pesquisa na semana anterior ao golpe, realizada em São Paulo a pedido da Fecomercio, apontava que 72% da população aprovava o governo Jango.
· Entre os mais pobres a popularidade alcançava 86%.
· 55% dos paulistanos consideravam as medidas anunciadas por Goulart no Comício da Central do Brasil, em 13 de março, como de real interesse para o povo.
· Entre as classes A e B, a rejeição a Goulart era um pouco maior em 1964. Ao menos 27% avaliavam o governo como ruim ou péssimo na capital paulista.”
 http://www.zedirceu.com.br/para-ex-presidente-fhc-jango-se-reelegeria-em-1964/

domingo, 23 de março de 2014

BELO DEPOIMENTO DE MEU AMIGO ALMINO AFFONSO

Meu querido e velho amigo Almino Affonso concedeu esta bela entrevista ao jornalista Paulo Totti, sobre os 50 anos do golpe militar. Ele foi ministro do Trabalho do presidente constitucional João Goulart, e líder do PTB, partido governista, na Câmara dos Deputados. Há alguns anos, comecei a escrever uma sua biografia, para o que gravei dezenas de horas de depoimentos, em seu escritório. Dele recebi cópias de todos os seus projetos e pronunciamentos, desde o primeiro mandato, muito antes de 64. Infelizmente, motivos alheios às nossas vontades suspenderam o projeto que ia pela metade. Suas palavras são importantes para recordarmos como foi o golpe que jogou o Brasil na terrível ditadura de 21 anos. E para darmos valor à Democracia afinal conquistada e ainda em permanente construção.


Almino Affonso: a história de quem perdeu


Por Paulo Totti em 18/03/2014 na edição 790
Reproduzido do Valor Econômico, 14/3/2014; intertítulos do OI
Em 10 de abril de 1964, o Brasil soube que Almino Monteiro Álvares Affonso era o inimigo público número 14 da República. Esta foi sua posição na lista de 102 brasileiros que tiveram direitos políticos suspensos por integrar, ou apoiar, segundo registros da época, o governo “comuno-petebo-sindicalista” deposto pelas Forças Armadas entre os dias 31 de março e 2 de abril. João Goulart foi o primeiro. Seguiam-no Jânio Quadros, Luiz Carlos Prestes, Miguel Arraes, Leonel Brizola. O sexto era Rubens Paiva. Celso Furtado, o décimo. Em 9 de abril, o golpismo vitorioso se considerou “autêntica revolução” e se investiu em poder constituinte, conforme o Ato Institucional assinado nesse dia pela junta militar.
O Ato ficou sem número porque os autores não pensaram na hipótese de uma sequência. Mas, em outubro de 1965, veio o AI-2. Depois, o AI-3, o feroz AI-5, até o AI-17, em 1969, além de 104 Atos Complementares, com anexas cassações de mais políticos eleitos, ministros do STF, militares dissidentes e de potenciais candidatos à Presidência, como o ex-presidente Juscelino Kubitschek e até o ex-governador Carlos Lacerda, líder civil, nos primórdios, do que também se chamou “redentora”.
Almino Affonso testemunhou em Brasília a agonia do regime constitucional. Em 44 horas, ruiu um governo que se considerava forte, confiado em apoio popular despido de organização para a resistência e em dispositivo militar que não agiu nem reagiu.
Aos 85 anos, Almino diz que o golpe foi mais que simples quartelada. “Fez parte da história do século XX, capítulo do entrechoque entre Estados Unidos e União Soviética. Sem considerar a Guerra Fria não se entende o golpe no Brasil.” O ex-deputado amazonense, na época líder do PTB, partido de Jango, rejeita a versão de que o país foi salvo do comunismo iminente. “Os comunistas não tinham como chegar ao poder. Por eleições, nem falar; por luta armada, nem falar; muito menos em aliança com Jango. A que título um proprietário de terras faria aliança que levasse ao comunismo?”
Sobre o fato de Jango abandonar o poder sem luta, é incisivo: “Não se pode chamar de covarde a quem, tendo um canivete, não reage ao ataque de alguém armado com metralhadora”.
– Houve traição, incompetência? O general Argemiro Assis Brasil, chefe da Casa Militar, dizia que armara invencível dispositivo militar para repelir tentativas golpistas.
– Não tenho condições de dizer se houve omissão traiçoeira. Mas houve, no mínimo, incompetência.
“Anulei a portaria”
As reflexões de Almino estão no livro “1964: Na Visão do Ministro do Trabalho de João Goulart”, a ser lançado em noite de autógrafos na Livraria Cultura, em São Paulo, no dia 31. Passados 50 anos, uma conversa com Almino é sempre uma revisita – com redescobertas – à história recente do país.
Bigodes e cabelos levemente grisalhos, glicemia sob controle, ainda vigoroso no vozeirão, no sorriso e na memória, indicou o Ristorante Santo Colomba para este “À Mesa com o Valor”. É casa de comida italiana na região dos Jardins, decoração transplantada de antigo bar do Jockey Club do Rio, com a peculiaridade de não aceitar cartões de crédito ou débito. Almino e o proprietário-chefe-de-cozinha, José Alencar de Souza, mineiro de Montes Claros, são amigos de longa data. Encontram-se no corredor e ali mesmo, de pé, decidem que se servirá no jantar arroz com frutos do mar para três. A fotógrafa Ana Paula Paiva e o repórter assistem. Alencar sugere vinho branco. Almino discorda: “No Chile, virei ‘tintero’, só tomo vinho tinto”. Chegam a feliz acordo. O arroz, perfeito no cozimento, e a textura suave do polvo, dos camarões, da lula, conviveriam em harmonia com o Carmenère.
Traçar o perfil de Almino requer recursos de “flashback”, recuos e avanços. Líder estudantil, candidato a vereador em São Paulo, deputado federal pelo Amazonas, ministro do Trabalho no governo Goulart, cassado, exilado, secretário de Negócios Metropolitanos no governo de Franco Montoro em São Paulo, vice no de Orestes Quércia, candidato a governador, novamente deputado federal e candidato ao Senado. Vitórias e derrotas nas passagens por siglas como PSB, PST, PTB, MDB, PMDB, PSDB e PDT. Às quais se agregaria PT, se frutificasse o flerte com Luiz Inácio Lula da Silva, em 1979/80 – “diálogos com Lula, razão talvez para outro livro”. Aposentado pelos três mandatos de deputado, vive em São Paulo. Sem partido e “inquieto com a falta de representatividade e respeitabilidade de todos os partidos”.
“Fale do que viveu, viu e ouviu naqueles dias”, pede o repórter.
31 de março. O líder do PTB chega à Câmara pela manhã e surpreende-se com tantos deputados nos corredores. “Não sabe? O general Olímpio Mourão Filho, comandante da guarnição de Juiz de Fora, desde as seis horas está em marcha para derrubar o Jango.” Almino liga para o líder do PTB no Senado, Artur Virgílio, pai do hoje prefeito de Manaus. O senador também nada sabe e convida Almino a ir até seu apartamento. De lá, Virgílio telefona para o Palácio das Laranjeiras, no Rio. Almino ouve na extensão. Jango diz que é tudo boato e faz uma pausa. Ouve-se alguém entrar no gabinete. “General”, diz Jango, “o que há de verdade sobre sublevação do Mourão?” Uma voz responde: “Nada, presidente, é um movimento de rotina, comum”. O interlocutor era o general Assis Brasil. “Nada mais, general?”. “Nada mais, presidente, é só isso”. Jango ao senador: “Ouviste, Artur? É mais uma falsidade dessa oposição”.
À tarde, a Câmara inteira está nos corredores. “Entro numa daquelas rodas e digo: ‘De onde vocês tiram tanta fantasia?’ E contei o que ouvi. O sobrinho do Juscelino, deputado Carlos Murilo, me tira da roda e diz: ‘Se o que você disse é jogada do presidente para criar um clima de distensão, não sei se tem utilidade. Mas, se diz isso porque acredita, está perdido. Belo Horizonte está em pé de guerra. O governador Magalhães Pinto assumiu o comando civil do que chamam de revolução, o general Carlos Luiz Guedes, comandante da IV Infantaria Divisionária, sediada em BH, é o comandante militar. Como é que o presidente não sabe disso?”
O presidente não sabia. A conversa com Virgílio foi ao meio-dia e o presidente só soube oficialmente da sublevação às seis da tarde, quando o ministro da Justiça, Abelardo Jurema, interrompeu um despacho e entregou-lhe um bilhete. A essa altura, Mourão estava às portas do Rio. Ainda agora, Almino se exaspera: “Do meio-dia às seis da tarde! Como é que o Assis Brasil, questionado por Jango ao meio-dia, não tomou providências, não se informou? Ligasse a um compadre. ‘Me conta aí, está havendo algo em Minas?’”
À noite, Jango recebe políticos, Juscelino entre eles, que aconselham recuos: “Rompa com os sindicatos”, “demita ministro tal”, “feche a UNE [presidida por José Serra]”. Jango se negava. Na manhã do dia 1º, voa para Brasília, depois de saber que o general Amaury Kruel, comandante do II Exército, até então amigo, além de compadre, aderira à sedição. O general Armando Âncora, substituto do ministro da Guerra, Jair Dantas Ribeiro, operado de câncer, alega não poder garantir a segurança do presidente no Rio.
Às duas da tarde, Jango chama a uma reunião na Granja do Torto o senador Artur Virgílio e os deputados Tancredo Neves, Doutel de Andrade, Temperani Pereira, Luiz Fernando Bocayuva Cunha e Almino. “Vi o presidente com fisionomia abatida, barba por fazer, terno amarfanhado. Telefona o general Ladário Pereira Teles, comandante do III Exército, e recomenda a ida imediata para Porto Alegre, onde imaginava poder resistir. Jango pede nossa opinião. Tancredo e sucessivamente os demais são a favor. Jango concordou, mas deixou claro que não queria dividir o país e repetiu o que já dissera: ‘Não suporto a hipótese de derramar sangue do povo em nome do meu mandato’”.
Conseguiram o avião mais moderno do país, o Convair 990 da Varig, conhecido como Coronado, 920 quilômetros por hora em voo cruzeiro. Com ele, Jango iria depressa para Porto Alegre. Era começo da noite, aeroporto cheio de aliados civis.
“Detalhe inquietante, o general Nicolau Fico, comandante militar de Brasília, chega de cara amarrada, mal cumprimenta o presidente e retira-se.” Jango vai para o avião, aos poucos as pessoas deixam o aeroporto. “Ficamos, Tancredo, Bocayuva, grande pessoa, meu irmão, e eu. E o avião enorme ali, todo iluminado, não saía do lugar. Já eram dez horas, e nada. Soldados da Aeronáutica fecham o acesso ao pátio do aeroporto. Fiquei com dor no estômago. ‘Tancredo, minha sensação é que vão prender o presidente aqui, na cara da gente’. Disse o Tancredo: ‘Vamos lá falar com o presidente, tomar alguma providência’”.
“Os soldados puseram baioneta na nossa cara. Aí, o Tancredo: ‘Abaixem as armas, somos representantes do povo’. Um coronel nos deixa passar. Jango, com Assis Brasil atrás dele, já descia a escada do avião. Abraça-nos e diz: ‘Pois é, houve uma pane. É o que dizem’. Levaram Jango para um Avro da FAB, turbo-hélice, um aviãozinho. E naquilo foi Jango para Porto Alegre”.
À saída do aeroporto, Tancredo disse: “Há dez anos, participei da última reunião presidida pelo doutor Getúlio. Agora me pergunto se a história se repete e foi a última vez que abracei Jango como presidente”.
“Ô, Tancredo, por que tanto pessimismo?”, disse Almino.
“Vocês são jovens. Acreditam que o Rio Grande tem condições de resistir sozinho.”
À meia-noite, vem o aviso de que o presidente do Senado, Auro Moura Andrade, convocava o Congresso para sessão extraordinária à uma da manhã. “Sentei na primeira fila, ao lado de Tancredo. Auro abre a sessão e lê uma carta do Darcy Ribeiro, chefe da Casa Civil, em que este informava ter o presidente viajado para o Rio Grande do Sul. Encontrava-se, portanto, em território nacional. Ato contínuo, Auro faz o discurso que todos conhecem, diz que o governo está acéfalo e pronuncia as frases célebres: ‘Declaro vago o cargo de presidente da República... O presidente da Câmara dos Deputados, Rainieri Mazilli, assume a Presidência da República’”.
“Tancredo se levanta e grita: “Canalha! Canalha!” E o deputado Rogê Ferreira, do PSB de São Paulo, porte atlético, empurra os seguranças, vai até Auro e cospe nele duas vezes. Desde então, chamo isso de cusparada cívica. Aconteceu entre uma e meia e duas da madrugada de 2 de abril. Esta é a data do golpe”.
Jango chega a Porto Alegre às 3h15. Reúne-se com Ladário e constatam que também as guarnições do III Exército, no interior do Estado, em Santa Catarina e no Paraná, estavam com o golpe. O governador Ildo Meneghetti, golpista, fugira para Passo Fundo, mas controlava a Brigada Militar. Ladário ainda insiste: “Vamos lutar”. Jango é o mais sensato, conclui que, ante a total desarticulação, ou inexistência, do “dispositivo”, a luta seria suicida. Às 11h45 do dia 2, parte para o Uruguai.
- Onde entra a Guerra Fria nisso?
- A política externa não agradava aos americanos. O Brasil reatou relações com a União Soviética, foi contra a expulsão de Cuba da OEA. Na crise dos mísseis, Kennedy mandou uma carta que era verdadeira convocação para o Brasil acompanhar os Estados Unidos num ataque a Cuba. Lembro a data: 22 de outubro de 1962. Jango reuniu, no Palácio, Francisco Clementino de San Tiago Dantas, chanceler; Evandro Lins e Silva, procurador-geral da República; Antônio Balbino, ex-consultor geral da República; general Albino Silva, então chefe da Casa Militar, e este jovem. Jango mostra a carta e já traz sua opinião, com anotações à mão, uns garranchos. A opinião dele era o respeito ao princípio de não intervenção. San Tiago escreveu o texto da recusa. Em Genebra, numa conferência sobre desarmamento, o Brasil anuncia que é não alinhado, não se subordina a nenhum bloco militar. Tudo isso contrariava a estratégia dos Estados Unidos, que tinham a América Latina como território seu. Daí o apoio aos golpes em todo o continente. No caso do Brasil, está provado, tropas americanas desembarcariam em Pernambuco se houvesse resistência. Jango já sabia disso, avisado pelo ex-chanceler Afonso Arinos. Não precisaram intervir, pois o financiamento a entidades como Ibad e Ipes, a campanha massiva anti-Jango na imprensa, acabaram por convencer os militares de que o governo ia comunizar o país.
- Um ano depois, o Brasil invade a República Dominicana para derrubar o presidente Francisco Camaño, tido como castrista. Mas não foi só para alinhar o Brasil aos Estados Unidos que aconteceu o golpe.
- Claro que não. A crise social e econômica foi fator propiciatório. A inflação era galopante e havia greves. Em São Paulo houve uma greve de 700 mil trabalhadores, sem intervenção do Ministério do Trabalho. Imagine o que a Fiesp achou disso. As Ligas Camponesas assustavam os latifundiários com o radicalismo da reforma agrária “na lei ou na marra”.
- Saiu o Estatuto do Trabalhador Rural...
- O projeto era do tempo de Getúlio. O deputado Fernando Ferrari, então líder do PTB, desengavetou-o e fez dele sua bandeira. Foi aprovado já com Ferrari fora do partido. Ele fundou o Movimento de Renovação Trabalhista (MRT) e se candidatou a vice-presidente, direto contra Jango. Sem rancor, Jango promulgou a lei, que tem a assinatura dele, a minha, como ministro do Trabalho, e a de José Ermírio de Moraes, ministro da Agricultura. O Estatuto jogou os ruralistas contra Jango com violência maior do que a luta pela reforma agrária. Mesmo que fosse possível iniciarmos a reforma agrária, ela, por natureza, não seria instantânea, é um processo. O Estatuto, não. Publicada a lei, no dia seguinte já tem que pagar salário mínimo e dar outros direitos ao trabalhador rural. Dois meses depois, num desastre de avião, morre o Fernando...
– Que outros fatores levaram a quase totalidade dos empresários a apoiar o golpe?
– Uma portaria proibia os sindicatos de unir-se em torno da mesma reivindicação. Como ministro, anulei a portaria. Surgiram os Pactos de Unidade e Ação (PUA), o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT), que organizou o comício de 13 de março na Central do Brasil. E havia a UNE, com greve pela participação dos estudantes na congregação da Universidade.
Quadro instável
“A Varig demite o comandante Melo Bastos, com imunidade sindical. A greve que começou na empresa se alastra para outras categorias. Jango me chama, preocupado com a Companhia Siderúrgica Nacional também parar. ‘Já pensaste naqueles fornos petrificados?’ Digo que ministro do Trabalho não agiria contra uma greve que queria o cumprimento da lei. ‘Mas se o senhor pensa diferente, é meu dever entregar o cargo agora mesmo.’ Jango reage: ‘Ah é? Tu sais de herói, e eu?’ Lembro ao presidente que ele foi ministro do Trabalho de Getúlio. ‘O senhor usaria a polícia contra os grevistas?’ Jango pensou um pouco. ‘Esquece.’ E ligou para o presidente da Varig, Rubem Berta. ‘Ô, Alemão, tá querendo complicar meu governo? Tu faz o favor de readmitir o Melo Bastos. Primeiro, porque tu erraste. Segundo, porque quem tá te falando é o presidente da República.’ Berta readmitiu Melo Bastos, a greve acabou, os fornos de Volta Redonda seguiram acesos. Tudo isso acumulou ódios intermináveis.”
Almino nasceu em Humaitá, às margens do rio Madeira. Começou o curso de advocacia em Manaus e o concluiu em São Paulo, na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, onde venceu um concurso nacional de oratória. O dom seria reconhecido mais tarde até pelos inimigos. Carlos Lacerda, líder da UDN na Câmara, diria: “Que grande orador é o senhor, o senhor tem asas”. O general Mourão desancou Almino em suas memórias, mas destacou a “voz de barítono”, a “fluência verbal”. O jovem acabou presidente da União Estadual de Estudantes (UEE) e se candidatou a vereador pelo Partido Socialista Brasileiro. Os 870 votos não serviram sequer para boa posição entre os suplentes.
Em 1958, amigos sugerem que, se São Paulo lhe negava a vereança, fosse ao Amazonas e voltasse deputado federal. Em sua terra, filia-se ao PST e, em campanha de “três meses menos três dias”, torna-se, aos 28 anos, um dos sete da representação amazonense na Câmara. Usou megafone, banquinho e a voz potente para discursar pelas esquinas de Manaus. O discurso, porém, era diferente, mesclava temas locais aos federais, como a defesa da Petrobrás (ainda com acento).
Na Câmara, entrou para o PTB e chegou a líder da bancada. Integrou a Frente Parlamentar Nacionalista, reelegeu-se, e foi ministro do Trabalho de João Goulart por seis meses. Uma tarde, Juscelino o convidou para um café, disse que queria voltar à Presidência em 1965, faria a reforma agrária, e se sentiria honrado se Almino aceitasse ser seu vice. Veio o golpe, foram ambos cassados e não se falou mais nisso.
– No dia 3 de abril de 64, começou a caça às bruxas. Achou que ia ser preso?
– Rainieri Mazzilli, presidente por duas semanas, pois teve que entregar o poder ao general Humberto Castello Branco, mandou avisar que deputados seriam presos e ele não poderia evitar. Citou meu nome e o de Francisco Julião.
A notícia da cassação chegou quando recebia a visita de San Tiago. O ex-chanceler lhe disse: “O homem público não deve deixar-se prender. Apequena-se, humilha-se, é exposto a vexames. [Em Recife, dias depois, o comunista Gregório Bezerra, descalço, pés em carne viva e puxado por uma corda no pescoço, foi exibido como troféu pelas ruas do bairro da Casa Forte.] Opte pelo exílio. Passará alguns anos fora. No máximo, quatro. Você é jovem”. San Tiago morreu de câncer no pulmão cinco meses depois. Almino, no dia 11, entrou na embaixada da Iugoslávia. Exílio de 12 anos.
A embaixada estava vazia. Os móveis, vindos no ano anterior para a visita do marechal Josip Broz Tito a Brasília, voltaram para o Rio. Não sobrou uma cadeira. Na primeira noite, os asilados, eram uma dúzia, dormiram no chão, depois arrumaram camas de vento e se cotizaram para comida e sabonetes. No início, estavam lá os deputados Bocayuva e Lício Hauer, do Rio, Fernando Santana, da Bahia, e José Aparecido de Oliveira, da “bossa nova” da UDN mineira. Rubens Paiva, “outro amigo-irmão”, chegou mais tarde. Viajaram para Belgrado num navio cargueiro. Rubens Paiva conseguiu ir logo para Paris e, com a mulher, Eunice, foi de carro buscar Almino dois meses depois. Em Paris, Almino recebia “westerns” do Uruguai, “venha, venha”, porque Montevidéu se transformava na capital política do exílio. Atendeu ao chamado. O Uruguai ainda não ingressara no clube das ditaduras sul-americanas. Apesar disso, o governo brasileiro pressionou e o uruguaio, então um colegiado, expulsou Almino, em abril de 1965.
– Sua família, onde ficou?
– Ficou no drama, em Brasília. Estivemos 18 meses separados. Quando me asilei, tudo que tinha eram R$ 6 mil, dinheiro de hoje, sempre fui de marré-marré. Estava na embaixada quando nasceu meu quarto filho. Minha mulher, Lígia Britto, trabalhava no Ministério da Fazenda, concursada, já estava lá quando nos conhecemos. O salário dela, que não era alto, teve que suportar as despesas da casa e ainda sustentar sua mãe. Os amigos se cotizaram para nos ajudar. Do Uruguai fui para o Chile, contratado pela Organização Internacional do Trabalho, OIT. Pude, então, trazer a família para Santiago.
Lígia morreu há seis anos. O segundo dos quatro filhos, Sérgio Britto, é tecladista da banda Titãs, parceiro de Arnaldo Antunes.
Augusto Pinochet dá o golpe no Chile e a OIT o transfere para o Peru. Lígia e os filhos voltam para o Brasil, os garotos, alfabetizados em espanhol, estudarão em escolas brasileiras. O quadro político no Peru também era instável e a Argentina vivia curta, e tempestuosa, pausa entre ditaduras (governo Isabel Perón). Almino vai trabalhar na Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso) em Buenos Aires. De seis em seis meses, a família ia visitá-lo. Volta ao Brasil e à política brasileira em 1976, mas teria que esperar até 1985 para rever um civil no Palácio do Planalto.
Presidente eleito por voto direto, só em março de 1990.
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Paulo Totti, para o Valor Econômico
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed790_almino_