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sexta-feira, 14 de março de 2014

DITADURA TEVE VÍTIMAS QUE NEM SABEM O QUE SOFRERAM

Os silêncios da sociedade sobre a ditadura

qui, 13/03/2014 - 12:46

Sugerido por sergior

Da Folha
Em sua exposição no seminário "1964: 50 anos depois", em São Paulo, a historiadora Heloisa Starling, da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), listou o que ela classifica como "silêncios" da sociedade atual a respeito do período ditatorial. 
O primeiro desses silêncios, segundo ela, diz respeito à participação dos empresários no golpe e nas estruturas que sustentavam a ditadura, como o aparato repressivo. O segundo é sobre as ações dos militares contra alguns setores específicos da sociedade: "Sabemos pouco sobre o que aconteceu com os camponeses e nada sobre o que fizeram com os índios", afirmou.
Outra lacuna são os arquivos documentais de órgãos de segurança e inteligência daquela época, "material que os militares até hoje se recusam a entregar". O último silêncio, segundo ela, é com relação ao alcance e as estruturas do próprio aparato de repressão.
Ao lado do também historiador Carlos Fico, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro),Starling participou da quarta mesa do seminário, que é promovido pelo Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) em parceria com o Sesc São Paulo.
A historiadora aproveitou a ocasião para apresentar dados já apurados de uma pesquisa que está conduzindo sobre o aparato de repressão. Para tentar desfazer a ideia de que a tortura só teria começado a ser usada de forma sistemática após 1968, com o AI-5 (Ato Institucional nº 5), ela reuniu todos os registros em jornais de denúncias de tortura feitas em instituições militares entre 1964 e 1968.
Conforme seu levantamento, os casos já eram constantes e numerosos em todos os anos pesquisados. Começou com 168 registros em 1964, caiu para 35 em 65, mas pulou para 66 no ano seguinte, 50 em 67, e foi a 85 no último ano pesquisado.
Essas ocorrências ocorreram em 36 quartéis ou outras instalações militares em sete Estados, pelo que conseguiu mapear até agora. E com modos sempre muito parecidos: pau de arara, afogamento e choques elétricos entre as principais modalidades de violação.
"A repressão pode ter se expandido ou se modificado durante os anos, mas a matriz dessa repressão foi a mesma desde 1964", afirmou.
Utopia autoritária
Carlos Fico fez uma explanação sobre o que ele chama de "utopia autoritária" dos militares: a ideia de que o Brasil poderia se transformar numa potência se alguns obstáculos como a corrupção e os políticos demagogos fossem removidos, segundo sua definição. Essa utopia, disse, é o que serviu de motivação para a repressão.
O historiador divide os militares em dois grupos: o dos saneadores, os radicais que queriam "fazer uma operação limpeza para prender, exilar e até matar, se fosse preciso"; e o dos pedagógicos, os que defendiam o desenvolvimento de projetos para suprir o que eles julgavam como deficiências do país.
O projeto saneador, segundo ele, é o que explica a tortura e outros instrumentos que inicialmente eram ocultados, como a censura à imprensa. Seus pilares eram a espionagem e a polícia política. Em documentos, tratavam dessas iniciativas como atos "revolucionários", afirmou. Esse projeto cresceu com a chegada de Costa e Silva à presidência, em 1967, e foi "vencedor" com o AI-5, disse.
Já o projeto pedagógico, diferentemente de seu concorrente, era orgulhosamente assumido. "Para esses, o brasileiros eram despreparados, não sabiam votar, não tinham noções básicas nem de higiene", afirmou, lembrando do Sugismundo, personagem de um desenho animado criado para campanhas educativas na TV. Seus instrumentos eram a censura moral e a propaganda política, explicou.
Fico criticou também o que ele chama de "discurso de vitimização" em relação à ditadura, um comportamento que, segundo ele, simplifica a história em uma mera disputa entre militares e opositores que tentaram combater o regime. "Esse discurso deixa de incluir no rol das vítimas muitas pessoas que foram atingidas e que nem sabem disso", afirmou.
O historiador citou um exemplo vivenciado por ele mesmo anos atrás. Contou que ao pesquisar arquivos da época, encontrou o caso de um engenheiro da Petrobras que deixou de ser promovido para um importante cargo graças a um relatório confidencial sobre ele produzido internamente por agentes da empresa que colaboravam com a repressão. "Esse engenheiro foi uma vítima, mas nunca soube disso. E ele nem era militante de esquerda, era até bastante discreto, só que era homônimo de um militante", explicou.
Fico contou que procurou o tal engenheiro para mostrar aquela documentação. "Me arrependi muito de ter feito isso", afirmou. "Ele viu aquilo, ficou em silêncio por uns 30 segundos e aí começou a chorar", afirmou.
Em outra mesa de debates realizada, os pesquisadores Marcos Napolitano (USP) e Ismail Xavier(Cebrap e USP) discutiram as manifestações culturais de contestação ao regime militar.
As exposições, que ocorrem no Teatro Anchieta, região central de São Paulo. No dia 25 haverá uma sessão especial com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e os sociólogos Francisco de Oliveira e José Artur Giannotti.

http://jornalggn.com.br/noticia/os-silencios-da-sociedade-sobre-a-ditadura#.UyIGso0j-R4.facebook

terça-feira, 11 de março de 2014

RUBENS PAIVA, PARA OS SAUDOSOS DA DITADURA:

No tempo da ditadura

Por MARCELO RUBENS PAIVA
 

“Como é que a gente faz hoje quando entra num táxi e o motorista diz que tempos bons eram os da ditadura?”, me perguntou o amigo Nirlando Beirão.
Diz que:
No tempo da ditadura, a gente não podia escrever sobre o tempo da ditadura, nem qualificar o regime como uma ditadura. No tempo da ditadura, ao invés de uma análise crítica sobre a ditadura, digo regime, neste espaço teria um poema de Camões ou uma receita de bolo, pois seria censurada.
Todo mundo que era contra a ditadura era comunista. Todos se tornaram suspeitos, subversivos em potencial. E muitos que, em 1964, conspiraram com os militares, na missão de impedir que comunistas tomassem o poder, e o Brasil se transformasse numa diabólica ditadura do proletário, perceberam a manobra e foram depois acusados de ligações com comunistas.
No primeiro ato da ditadura, o AI-1 (Ato Institucional Número 1), baixado pela Junta Militar em 9 de abril de 1964, cassaram os opositores dos comunistas, os trabalhistas: João Goulart, Leonel Brizola, Darcy Ribeiro, parte da bancada do PTB, partido fundado por Getúlio Vargas, como Almino Afonso e meu pai, Jânio Quadros, Miguel Arraes, o deputado católico Plínio de Arruda Sampaio, o economista Celso Furtado, o jornalista Samuel Weiner, até o presidente da Petrobras, marechal Osvino Alves. Nenhum deles era comunista.
Entre outros cassados, estavam membros da corporação que mais perseguições sofreu durante a ditadura: os próprios militares, como o general-de-brigada Assis Brasil, o chefe do Gabinete Militar, Luís Tavares da Cunha Melo, e os almirantes Cândido de Aragão e Araújo Suzano. Milhares de oficiais foram expulsos das Forças Armadas durante a ditadura.
Bem antes ditadura, o PCB (Partido Comunista do Brasil) já era ilegal, e seus líderes, eles, sim, comunistas, viviam na clandestinidade. A intenção do Golpe de 64 era impedir o avanço comunista no Brasil e restaurar a democracia em dois anos. Não demorou muito, o ex-presidente Juscelino Kubitschek, candidato à reeleição, foi cassado acusado de corrupção e colaborar com comunistas.
No primeiro teste eleitoral, em 1965, não foram eleitos os candidatos dos militares em Minas Gerais e Guanabara. Baixaram o AI-2 (Ato Institucional Número Dois). Partidos políticos foram extintos. Poder Judiciário sofreu intervenção. Foram reabertos processos de cassação. Carlos Lacerda, então aliado, dormiu conspirador e acordou subversivo.
O novo partido da situação, Arena, não engrenava. Iria ser derrotado nos Estados mais populosos. A paciência dos militares se esgotou: o AI-3 foi baixado em 1966, determinando que eleição de governadores seria indireta, executada por colégios eleitorais, e prefeitos das capitais, estâncias e cidades de segurança nacional seriam nomeados.
O AI-4, de 1966, revogou definitivamente a Constituição de 1946 e proclamou outra. O AI-5, de 1968, suspendeu as garantias constitucionais da Constituição que tinham acabado de promulgar. Despachos da presidência de República passaram a valer mais que leis. Congresso, Assembleias Legislativas e Câmeras dos Vereadores foram fechados por um ano. O Presidente podia decretar intervenção de Estados e Municípios. Estavam proibidas atividades e manifestação de natureza política e suspenso o direito de habeas corpus.
Finalmente, parte da sociedade civil que apoiou o Golpe percebeu que militares não sabiam negociar nem ser contrariados. Não têm intimidades com jogo político. Na essência, não praticam a democracia: obedecem sem questionar um comando, uma hierarquia imposta de cima para baixo.
Foram acusados de comunistas os subversivos dom Elder Câmara, dom Pedro Casaldáliga e dom Paulo Evaristo Arns, que se encontrara em 1964 em Três Rios com tropas do general Olimpio Mourão Filho, deflagrador do Golpe, para oferecer assistência religiosa.
Nos tempos da ditadura, não se discutiam os grandes investimentos. Militares construíram uma usina nuclear com tecnologia obsoleta, numa região de difícil evacuação, e duas estradas paralelas ao Rio Amazonas, a Transamazônica e a Perimetral Norte, que foram tomadas pela floresta anos depois, devastando nações indígenas. Estatizaram companhias telefônicas e de energia. Colaboraram para o desmantelamento da malha ferroviária brasileira.


Editores de livros, como Ênio da Silveira, foram presos. Jornalistas, como toda a redação do Pasquim, entre eles, Paulo Francis, foram presos. Até um escritor no início simpático ao Golpe, como Rubem Fonseca, foi censurado. Caetano Veloso e Gilberto Gil foram presos e expulsos do Brasil. Raul Seixas foi convidado a se retirar, depois de ironizar o regime com “sou a mosca que pousou na sua sopa”. Chico Buarque se exilou. Teatros foram depredados, atores espancados. Parte da classe teatral, como Zé Celso e Boal, foi embora. Glauber Rocha também se mandou.
O contrabando e o jogo do bicho se associaram a agentes da repressão e se fortaleceram. O crime organizado nasceu. A promiscuidade entre polícia e bandido, tema do filme Lúcio Flávio (Babenco), se consolidou na ditadura, que promoveu e anistiou depois torturadores. O Comando Vermelho surgiu num presídio da ditadura.
Ao terminar em março de 1985, a ditadura deixou uma inflação que virou hiper (a acumulada de 1984 foi de 223,90%), uma moeda desvalorizada (um dólar valia 4.160 cruzeiros), uma dívida externa que nos levou à moratória (FMI suspendeu em fevereiro de 1985 o crédito ao Brasil, que não cumpria as metas depois de sete tentativas). Outra herança: desmantelamento do ensino público.
O Brasil é governado há 20 anos por três subversivos acusados de comunistas pela ditadura: FHC, ex-professor da USP cassado e exilado, Lula, sindicalista cassado e preso, e Dilma, terrorista acusada de liderar uma organização clandestina que praticava a luta armada. Líderes do antigo PCB fundaram o PPS. Todos estão na legalidade e participam da vida democrática, como o PCB e seu racha, o PCdoB, parte da base aliada.
O Brasil talvez tenha sido vítima de uma das maiores farsas da História: nunca correu o risco de virar comunista.

 http://blogs.estadao.com.br/marcelo-rubens-paiva/no-tempo-da-ditadura/

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

JUDICIÁRIO INSISTE EM FAZER DE ZÉ DIRCEU UM MÁRTIR

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

FOLHA DEFENDE LINHA EDITORIAL ATRASADA

A Folha pensa? Pobre jornalismo!

Por Altamiro Borges

Para quem ainda imaginava que a Folha de S.Paulo faz jornalismo, o especial do jornal desta quarta-feira (19) confirma que ela faz política. “O que a Folha pensa” é o título do longo e laudatório artigo. Nele o diário da famiglia Frias – que apoiou o golpe militar, aliou-se ao setor linha dura da ditadura, cedeu seus veículos para os órgãos de repressão e tornou-se um dos principais veículos dos dogmas neoliberais, entre outros crimes que comprovam que o jornal é um verdadeiro partido da direita nativa – apresenta a sua plataforma para a atualidade. A linha editorial da Folha revela bem os limites estreitos do seu jornalismo – e coitado do jornalista que não reze de seus dogmas.

O artigo apresenta os “principais pontos de vista defendidos pela Folha”, que completou 93 anos de existência nesta quarta-feira. O jornal ainda tenta se travestir de eclético e pluralista para enganar os mais ingênuos, mas a sua visão elitista e autoritária fica patente. No terreno econômico, por exemplo, a Folha endeusa a “livre-iniciativa” e a “economia de mercado”. Já no campo da política, as suas propostas são de uma democracia liberal ainda mais restritiva, com voto distrital, cláusula de barreira, voto facultativo e outros contrabandos para afastar a participação popular. Apenas na área do comportamento é que a Folha apresenta algumas ideias progressistas em defesa das liberdades individuais.

O jornal confessa que “tais princípios gerais funcionam como pedra de toque para os editoriais que a Folha publica diariamente. Cabe à editoria de Opinião, a cada novo assunto, elaborar argumentos coerentes com tais diretrizes, tentando traduzi-las para um público amplo. Exceto quando há mudança expressa de posição, o próprio histórico dos editoriais serve de baliza. Opiniões já publicadas funcionam como ‘jurisprudência’ do jornal. O fato de a Folha declarar sua opinião por meio dos editoriais não impede que os colunistas (de colaboração periódica) e os articulistas (esporádica) manifestem posição diferente”. Exatamente por isto, a Folha escalou um time de notórios reacionários, com raríssimas exceções.

Mesmo declamando que “o pluralismo é uma das marcas da Folha”, o artigo fixa seus “principais pontos de vista” sobre vários temas. Em todos, o jornal não esconde seu viés oposicionista, sempre destilando veneno contra os governos Lula e Dilma. No item Copa do Mundo, por exemplo, ele faz questão de realçar os gastos excessivos e o péssimo legado. Já sobre o Bolsa Família, o jornal diz que “o Brasil ainda precisa de programas de transferência direta de renda, mas eles devem exigir contrapartida do beneficiário... O programa peca pelas poucas portas de saída, ou seja, oportunidades criadas para que os beneficiários deixem de precisar da bolsa”.

A visão ultraliberal da Folha fica mais evidente no debate sobre a economia. O jornal defende “reduzir o gasto público”; “perseguir inflação baixa e reduzir a meta oficial no médio prazo”; “reduzir e reformar progressivamente a carga tributária”; “reformar a Previdência, o que implica, entre outras medidas, aumentar a idade da aposentadoria”; “conceder mais serviços públicos à iniciativa privada”; entre outros pontos. Um típico programa neoliberal, bem ao gosto de FHC – que quase levou o Brasil à falência no seu triste reinado – e da oligarquia financeira que afundou os EUA e a Europa numa das piores crises da história do sistema capitalista mundial.

http://altamiroborges.blogspot.com.br/2014/02/a-folha-pensa-pobre-jornalismo.html

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

CUT CONTRATOU DELÚBIO POR MÉRITO E EM PROTESTO CONTRA PRISÃO POLÍTICA

Contratação do Delúbio é ato político contra julgamento de exceção, diz presidente da CUT

Contratação de Delúbio é gesto de solidariedade, mas também é ato político contra julgamento de exceção do STF, afirma presidente da CUT.





Najla Passos
Foto: CUT
CUT



Brasília - Em entrevista à Carta Maior, Vagner Freitas, presidente da maior central sindical brasileira, afirmou que a contratação do ex-presidente do PT, Delúbio Soares, condenado pela Ação Penal 470 a seis anos e oito meses de prisão em regime semiaberto, é um reconhecimento da expertise dele em relação à pauta política e sindical, é um ato de solidariedade ao companheiro que foi um dos fundadores da CUT, mas também é um ato político contra um julgamento de exceção, que a central teme que possa abrir precedentes jurídicos que prejudiquem a luta dos trabalhadores.
 
Na entrevista, Freitas também explicou porque as centrais sindicais se contrapuseram ao projeto de regulação do trabalho de curta duração, apresentado pelo governo para regulamentar as relações trabalhistas durante a Copa do Mundo.
 
“Da forma como o dispositivo está colocado, ao invés de regulamentar o trabalho de curta duração em benefício dos trabalhadores, ele irá permitir que empresários inescrupulosos possam legalizar as irregularidades que já praticam hoje”, justifica.
 
O presidente da CUT ainda falou da pauta sindical do período e das expectativas do mundo sindical para o último ano do primeiro mandato da presidenta Dilma Rousseff, cuja principal bandeira é o fim do que ele chama de “herança maldita do governo FHC”: o fator previdenciário. “Nós defendemos que o governo Dilma tem que ser lembrado como aquele que permitiu aos trabalhadores reaver seu direito de se aposentar com salário digno”, disse.
 
Confira a íntegra da entrevista:
 
Carta Maior – As centrais sindicais, incluindo a CUT, abriram a pauta sindical do ano se contrapondo ao projeto do governo para regulamentar o trabalho de curta duração, com vistas à Copa do Mundo, apresentado este mês. Por quê?
 
Vagner Freitas – No Brasil, há um grande número de empresários sérios, mas também há uma parte de empresários inescrupulosos. E nós avaliamos que a proposta de trabalho de curta duração para a Copa do Mundo e para as Olimpíadas não pode dar brechas para que alguns empresários a utilizem para burlar a lei contra os trabalhadores. O que nós estamos alertando o governo é que, da forma como o dispositivo está colocado, ao invés de regulamentar o trabalho de curta duração em benefício dos trabalhadores, ele irá permitir que empresários inescrupulosos possam legalizar as irregularidades que já praticam hoje.
 
CM – Então, a avaliação das centrais é que o projeto pode ter um efeito contrário ao anunciado pelo governo?
 
VF - Ele pode ter um efeito mais ou menos parecido com o que teve o projeto apresentado pelo finado deputado Adão Preto, do Rio Grande do Sul, importante companheiro nosso de luta, para regulamentar o trabalho das cooperativas. A intenção era correta, de regulamentar o cooperativismo internacional que a CUT defende, forjado e constituído pelos trabalhadores, onde eles não são empregados, mas cooperativários, com o mesmo ideal e usufruindo do fruto coletivo do trabalho. Só que, no dia a dia do Brasil, o projeto acabou propiciando a farra das “cooper rádios” que são empresas não cooperativas que se aproveitam dessa legislação para explorar ainda mais os trabalhadores. Com o trabalho de curta duração pode acontecer algo parecido.
 
CM – E qual alternativa a CUT apresenta?

VF –
 A CUT vai construir outro projeto, a partir daquele apresentado para as centrais. Nos já estamos com a nossa equipe jurídica aqui pensado sobre isso, e vamos discutir com o governo algo que seja absolutamente focado apenas na copa do Mundo. Algo que, depois, não vire legislatura para tudo no Brasil.
 
CM – O governo se mostrou aberto ao diálogo?
 
VF – O governo precisa estar aberto ao diálogo. Ao mesmo tempo em que apresentou seu projeto para as centrais sindicais para ter apoio, a CUT tá dizendo que vai procurar o governo, com boa vontade, para apresentar uma alternativa. Se o governo tem a pretensão de que não haja burla, a CUT também tem. Então, vamos tentar construir um projeto a partir da visão da CUT que, esperamos, seja absorvido pelas demais centrais. E, depois, discuti-lo com o governo. Nós não somos contra a regulamentação, mas dependendo da forma com que se regulamenta, se coloca a perder e não a ganhar para os trabalhadores. Como nós queremos fazer um sindicalismo propositivo, como nós acreditamos que o Brasil vive um momento de diálogo e concertação, com a possibilidade que você tem de conversa entre patrão, empregado e governo, nós vamos apresentar uma proposta.
 
CM – Quais as outras pautas sindicais importantes para o período?
 
VF - Não é possível que nós acabemos o mandato da presidenta Dilma sem o fim do fator previdenciário, uma herança maldita do governo Fernando Henrique Cardoso que prejudica os trabalhadores, penaliza quem começa a trabalhar mais cedo, faz o trabalhador trabalhar mais tempo e se aposentar ganhando menos. Nós precisamos extingui-lo ou discutir uma fórmula  intermediaria que venha devolver aos trabalhadores o que lhes foi tirado por essa política equivocada.
 
Em abril, provavelmente, termos um ato público para discussão da nossa pauta de reivindicação e uma das questões centrais será o fator previdenciário, além da redução da jornada sem redução do salário, a questão da regulamentação dos direitos de negociação do serviço público, a questão da educação pública, gratuita, renovadora e transformadora, a pauta dos trabalhadores do campo, familiares e da reforma agrária.
 
Mas, sem dúvida nenhuma, o fim do fator previdenciário é a atitude política que nós queremos que marque o governo Dilma. O governo Lula ficou marcado pela construção de uma regulação perene de valorização do salário mínimo. Nós defendemos que o governo Dilma tem que ser lembrado como aquele que permitiu aos trabalhadores reaver seu direito de se aposentar com salário digno.
 
CM – O que ainda emperra o fim do fator previdenciário?

VF –
 É a discussão sobre o financiamento da previdência. O que nós colocamos é que a previdência é um patrimônio dos trabalhadores e nós jamais colocaríamos em pauta uma proposta que representasse riscos para ela. Nós não queremos que se arrebente a previdência. E acreditamos que acabar com o fator previdenciário ou criar uma regra intermediária não acabará com o custeio da previdência. Com isso, nós não temos concordância. Por isso, queremos sentar à mesa e apresentar nossas argumentações para que o governo tenha segurança de que isso não prejudica a questão previdenciária. Outras medidas, sim. Se o país continuar, por exemplo, com a isenção de uma parcela do empresariado, obviamente vai ter dificuldade para mantar o sistema previdenciário. Mas fazer o trabalhador trabalhar mais e ganhar menos não pode ser a política social para manutenção da previdência. A previdência deve existir justamente para o contrário: para propiciar que o trabalhador ingresse no sistema, colabore com o sistema, faça que ele seja plural com todos contribuindo e se beneficiando e, por fim, tenha uma aposentadoria digna e decente.
 
CM – O senhor não falou na reforma política e no marco regulatório da mídia. Estas bandeiras continuam entre as prioridades da CUT? 
 
VF – São duas questões fundamentais. A CUT é uma central sindical de transformação, que trabalha seus trabalhadores e sindicatos filiados para que sejam agentes de transformação da sociedade, através da valorização do trabalho. Então, nós não podemos, e nem é da nossa característica, fazer apenas reivindicações pontuais na área do direito do trabalho. Nós precisamos transformar a sociedade em benefício do trabalhador, com mais direitos e mais democracia. Nós participamos do Fórum Nacional pela Reforma Política. Inclusive, concordamos com a proposta da presidenta Dilma de fazer uma constituinte específica para a reforma política, porque entendemos que este congresso Nacional, da forma que é constituído, terá dificuldades de fazê-la.
 
Nós precisamos mudar o modelo eleitoral do Brasil, acabar com o financiamento privado de campanha, criando o financiamento público, para acabar com essa história da população achar que está votando no candidato que ela escolheu, quando na verdade ela está votando no candidato que o sistema determinou que ela votasse, a partir do dinheiro empregado em sua campanha. Essa questão da reforma política é a mãe das reformas, para que você tenha no Congresso Nacional, por exemplo, uma representação democrática do que pensa toda a sociedade brasileira. E não como acontece hoje, em que essa representação é hegemonizada pelos empresários, que são quem financiam as campanhas eleitorais.
E nós queremos também que não seja reformada só a questão eleitoral. Que a sociedade tenha direito a instrumentos de participação democrática direta, como referendo, plebiscito. Nós não entendemos que, quando você elege um dirigente, seja para o Executivo ou para o Parlamento, ele tenha, a partir daí, tutela absoluta da sua vida para fazer o que ele bem entende com o voto que você lhe deu. Há assuntos de relevância que têm que ser deliberado pela sociedade.
Nós defendemos também a questão de reforma da mídia. Não queremos de maneira nenhuma estabelecer uma política de censura, mas que o Brasil tenha, de fato, liberdade de expressão. Porque hoje não temos. No Brasil, quem tem liberdade de expressão é quem comanda os meios de comunicação. E com isso você concentra toda a tentativa de construção da opinião do povo brasileiro nas mãos de um empresário que só visa ter lucro individual, como se fosse um banqueiro ou um industrial. Nós queremos um marco regulatório das comunicações. Existe em outras partes do mundo, na Inglaterra e nos Estados Unidos, que procura civilizar o direito à comunicação, e não monopolizar a desinformação a serviço do capital. Esta é uma luta constante da CUT.
 
CM – Você falou da concentração dos meios, do monopólio da mídia. Agora, por exemplo, a central têm recebido muitas críticas da imprensa por conta da contratação do Delúbio Soares, condenado pela ação penal 470. Como a CUT está lidando com isso? Há desacordos internos ou a iniciativa foi consensual?
 
VF – O Delúbio Soares é um cidadão brasileiro que foi condenado por um julgamento que a CUT considera político, e não jurídico. Não foi apresentada prova nenhuma contra o Delúbio, ou contra o José Dirceu, o José Genoino, o João Paulo Cunha e outros mais. Mas independentemente da opinião da CUT, o próprio julgamento determinou que o Delúbio Soares tem condições de cumprir sua pena em liberdade condicional. E, para que essa liberdade condicional exerça a possibilidade de atenuar a sua pena, ele precisa ter um local de trabalho. A legislação diz isso. Não é a CUT. E para o Delúbio Soares e qualquer outro condenado a mesma pena.
 
A CUT não concorda com o julgamento, mas o STF precisa ser respeitado. Então, o que a CUT fez foi oferecer ao Delúbio Soares um local de trabalho. E por que ao Delúbio? Ele é fundador da CUT, é professor do sindicato de Goiás, foi tesoureiro da CUT e exercerá funções na CUT que ajudarão na área de formação sindical, de formação profissional, repassando sua experiência para dirigentes sindicais mais novos. Portanto, é um companheiro que tem trajetória e que está trabalhando no que ele entende. Não há nenhum absurdo: a CUT é legalmente constituída, paga a ele um salário que paga a outros assessores que fazem a mesma coisa que ele. A diferença é que o estado brasileiro colocou o Delúbio numa outra condição, de ser hoje um preso, com restrição de liberdade, que precisa arrumar emprego em algum local. É a CUT é um local que ele entende. Não tem nada de excepcional em relação a isso.
 
Esta é a questão mais óbvia. Mas também nós entendemos que é importante, para deixar claro para a nossa militância e para o Brasil de maneira geral, que nós temos que lutar para que este tipo de julgamento de exceção não contamine toda a democracia brasileira. Nós estamos muito preocupados que o que aconteceu neste julgamento da ação penal 470, em especial a aplicação da teoria do domínio do fato. Você pode ser punido, preso e condenado sem que nada seja provado nada contra você. E isso, com certeza, será usado contra os movimentos sociais brasileiros, contra a CUT, contra o MST e outros movimentos mais que questionam as leis. Porque uma coisa é o Delúbio, o Dirceu, o Genoino, pessoas de grande expressão nacional, que de alguma forma conseguem encontrar formas de se defender, de fazer até campanhas de arrecadação, inclusive pedindo para que a militância partidária pague as multas impostas. Mas nem todos no Brasil têm esta possibilidade.
 
Então, se você não lutar contra um julgamento de exceção que criminaliza sem ter provas, o que pode acontecer é que outros que não tem essa mesma expressão sejam criminalizados e presos, sem ter como reagir ou como se defender. Então, além de nós ofertarmos um emprego legal e de nós termos uma relação de companheirismo com o Delúbio, por ele ser  um dos fundadores da CUT e uma pessoa altamente gabaritada, também tem esse nosso grito, esse brado de alerta pela democracia, pelo estado democrático de direito, contra a judicialização da política.
http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/Contratacao-do-Delubio-e-ato-
politico-contra-julgamento-de-excecao-diz-presidente-da-CUT%0a%0a/4/30124