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quarta-feira, 8 de julho de 2015

DISCURSO DE ÓDIO E A MÍDIA MUNDIAL: ENTENDA MELHOR

As máquinas de vender intolerância e preconceito

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Para compreender onda de fundamentalismo e crimes de ódio, que se espalha por países como EUA e Brasil, é indispensável examinar papel de certos programas de TV
Por Sandro Ari Andrade de Miranda
O crescimento dos crimes de ódio é um fenômeno global! Sustentada por preconceitos e por valores fundamentalistas, temos observado uma onda de violência desmedida em diversos lugares do planeta, exatamente no momento em que explodem os meios de comunicação, o que, em tese, deveria garantir maior acesso à informação.
O ataque a igrejas das comunidades negras nos Estados Unidos, o espancamento de casais homoafetivos nas metrópoles brasileiras ou, simplesmente, de pessoas que se acredita serem homoafetivos (como num caso recente onde pai e filho foram espancados por simples manifestação de carinho), o incêndio criminoso de mesquitas na França, o massacre diário de palestinos pelo governo de Israel, são apenas alguns exemplos de aberrações que vivenciamos todos os dias.
Pior do que isto, o simples ato de ser levantada opinião contrária à dos ofensores ou dos grandes meios de comunicação também acaba resultando em ameaças, perseguições e agressões. A internet, que deveria ser o caminho da disseminação das informações transformadoras, tem sido canal de propaganda da violência moral, da étnica, da sexual e da simbólica.
Se durante o Iluminismo a luta por liberdade de imprensa e de opinião resultou numa conquista sem precedentes para a humanidade, criando os alicerces para a derrubada de impérios absolutistas, no mundo contemporâneo, na maior parte das vezes, os meios de comunicação não oferecem suporte à democratização da sociedade. Infelizmente, não são raros os exemplos onde a mídia de massa funciona como elemento de fomento a ódios, preconceitos e violência desmedida, como no caso do nazismo, do fascismo, e da islamofobia instaurada depois de 11 de setembro.
Os meios de comunicação, especialmente os canais de televisão, cumprem um papel decisivo no fomento ao preconceito, especialmente através da construção de arquétipos, de personagens onde o oprimido é sempre objeto de piadas. Portanto, os grandes meios de comunicação, dominados por oligopólios e grupos conservadores, também são o ponto de partida para vários crimes de ódio.
Num evento pré-campanha eleitoral em 2014, a novela Meu Pedacinho de Chão da Rede Globo de televisão, direcionada a um público infanto-juvenil, com primoroso trabalho estético e com rara qualidade de direção e interpretação, mesmo com sua projeção atemporal, apresentou todos os personagens negros como empregados, criticou o direito de voto dado aos analfabetos, uma conquista democrática de 1988, sem questionar a origem do problema, transformando trabalhadores analfabetos em pessoas desinteressadas na aprendizagem e converteu o Coronel, vilão da história, em herói redimido, num gritante retrocesso em relação ao roteiro da novela original, que foi construída sobre o alicerce da crítica social.
O que era para ser uma obra de arte, nos momentos citados foi palco para a disseminação de preconceitos de forma subliminar, e reforço para a campanha de ódio contra formas de pensar democráticas que é exercitado no dia a dia pelos telejornais da emissora. Por sinal, as novelas da Rede Globo, com raras exceções, sempre foram instrumentos de construção de arquétipos destinados ao controle dos avanços sociais. Vejam o exemplo “do bom e do mau sem-terra” no péssimo roteiro da reprisada novela O Rei do Gado, uma “obra-prima do preconceito”.
E aqui nem falo de uma recente novela das 18 horas (Buggy Uggy) ambientada na década de setenta, que tinha um militar moralista como “pai de família exemplar”, e não fez qualquer referência aos crimes praticados durante a “ditadura verde oliva” exercitados na mesma época. Também nem falo da reiterada imposição da “ditadura da maternidade” pelas novelas como única forma concreta de realização feminina. Normalmente as personagens que não sonham em ser mães são apresentadas como vilãs ou satirizadas, em síntese: mais uma forma de preconceito propagandeado.
Nesses folhetins televisivos vemos a construção de “bons políticos” que pregam discursos de um moralismo lamentável, enquanto passam o tempo todo convivendo de forma pacífica com seus parceiros e “bons correligionários”: latifundiários, grandes empresários, jornalistas com condutas duvidosas e famílias tradicionais. Ou seja, “nas novelas globais, o bom político é sempre aquele que defende o ideário e os interesses da emissora, mesmo que estes estejam em conflitos com o avanço da Democracia”.
No ano de 2011 os canais da Discovery divulgaram um interessante documentário sobre o “perfilhamento racial” nos Estados Unidos e a forma como a polícia, mesmo em Illinois, reduto eleitoral de Barak Obama, continua prendendo pessoas de forma indiscriminada e sem justificativa com base em elementos étnicos, muitos dos quais terminam na morte dos acusados, sempre negros, pela ação policial.
Em algumas situações observamos a autovitimização do opressor como instrumento de pregação do preconceito e de perpetuação do poder dominante, como nos discursos inflamados de brancos contra as políticas de quotas e de ação afirmativa, ou a patética conduta de alguns parlamentares e religiosos brasileiros defendendo o “orgulho hetero”, num claro ato de homofobia.
Aliás, enquanto o direito civil caminhou durante milhares de anos, desde a sua matriz romano-germânica, para reconhecer que não existe direito “de família”, mas “de famílias”, em suas diversas formas, observamos a lamentável tentativa de retrocesso, com a tramitação no Congresso Nacional brasileiro, do projeto de Lei do Estatuto da Família, mais um arremedo de fundamentalismo, sexismo e homofobia.
O uso de símbolos opressivos ainda é pouco enfrentado na sociedade brasileira, mesmo que a violência simbólica seja criminalizada na “Lei Maria da Penha”. Este tipo de violência ainda é visto por determinados setores da sociedade como não violência, como algo que afeta apenas a subjetividade das vítimas. Assim, a violência simbólica segue servindo como ponte para diversos tipos de preconceitos, ou como porta de passagem para a violência física sem nenhum tipo de controle.
Portanto, se formos buscar a fonte da disseminação inconsequente dos crimes de ódio, não poderemos deixar de questionar o papel dos meios de comunicação de massa, ou da ação de alguns ocupantes de assentos nos Parlamentos. Enquanto aceitarmos de forma acrítica que valores conservadores sejam impostos às nossas casas todos os dias pelo rádio, televisão ou internet, ou que o presidente da Câmara vá ao púlpito do Congresso para ofender minorias, ou negarmos a violência simbólica, ainda continuaremos convivendo com a chaga do preconceito!
http://outraspalavras.net/blog/2015/06/30/as-maquinas-de-vender-intolerancia-e-preconceito/#more-10809

domingo, 8 de junho de 2014

SENSACIONALISMO ALIMENTA MEDO E CRUELDADE DA CLASSE MÉDIA

A violência na classe média, 

item diário da agenda da imprensa

Escrito por: Carlos Castilho
Fonte: Observatório da Imprensa
O caso do porteiro esquartejado em São Paulo parece ser o candidato fácil ao título de 
crime monopolizador das atenções de jornais e telejornais da primeira semana de 
junho, seguindo fielmente a tristemente célebre regra do “se sangrar vira manchete” 
(adaptação da frase inglesa “if it bleeds, it leads”). Nem mesmo o frenesi pré-Copa foi 
capaz de tirar das primeiras páginas o crime protagonizado por um publicitário paulista.
Este é apenas o mais recente de uma série de assassinatos que ganharam projeção 
nacional graças à preocupação da imprensa em explorar delitos que envolvem 
famílias da classe média. Os crimes na classe C e D não despertam mais a mesa 
curiosidade dada a sua monótona frequência e motivos quase sempre ligados à 
precária situação econômica das vítimas e criminosos.
Antes do caso do porteiro morto por um morador do prédio onde trabalhava, 
assistimos durante mais de uma semana aos detalhes sórdidos do assassinato 
do menino Bernardo, de 8 anos, no Rio Grande do Sul. Retrocedendo mais no 
tempo encontraremos uma lista consistente de crimes em família, fato que leva 
a uma perturbadora dúvida: está aumentando a frequência de assassinatos na 
classe média brasileira, ou é a imprensa que está exagerando depois de descobrir 
um novo filão para atrair a atenção do público?
As estatísticas policiais podem oferecer elementos para atestar a veracidade ou 
não da primeira parte da pergunta, mas a observação crítica da imprensa mostra 
que a segunda parte é, pelo menos, parcialmente verdadeira. É óbvio que os 
jornais e telejornais não são os responsáveis pelos delitos cometidos entre 
pessoas da classe média, mas o fato de terem transformado dramas 
intrafamiliares em item de agenda noticiosa pode facilmente ser associado a
 uma preocupação com o faturamento.
A monotonia da cobertura jornalística sobre corrupção pública e privada, a 
crescente impopularidade e desinteresse pelo noticiário político, a sucessão 
de manifestações de protesto e o registro impotente dos assaltos, roubos e 
sequestros levaram a imprensa a buscar novos temas para reconquistar o 
interesse de um público cada vez mais viciado em redes sociais e no voyeurismo 
virtual.
A classe média urbana, antes protegida por uma cumplicidade da imprensa em 
relação aos seus conflitos domésticos, passou agora a principal protagonista de 
reportagens investigativas nas quais o voyeurismo e a solidariedade passional 
são os principais ingredientes da nova receita jornalística. Os segredos da vida 
privada tornam-se públicos e tema de intermináveis debates na imprensa sempre 
que coincidam com tragédias impactantes.
Por outro lado, em especial na TV, há um discreto incentivo à manifestação 
da ira comunitária e à cobrança de justiça a qualquer custo. Como jornais, 
revistas e televisão deixam de lado a investigação jornalística para privilegiar 
informações dadas por policiais, advogados, especialistas e magistrados, 
acabamos perdidos num mar de jargões, opiniões disfarçadas de verdades, 
silêncios cúmplices e dados distorcidos. Resultado: não conseguimos entender 
o que aconteceu, ficamos a espera de respostas, até que um novo crime 
monopolize as manchetes e, consequentemente, a nossa atenção.
A exploração comercial da violência nas famílias de classe média mostra tanto 
o estado de nervos de um segmento da sociedade até agora relativamente 
imune ao sensacionalismo,, como também o fato de a imprensa não conseguir 
romper a dependência das vendas como fator dominante da determinação 
da agenda de reportagens. Todos os crimes famosos dos últimos meses 
não produziram resultados conclusivos e permanece uma névoa de dúvidas 
sobre suas causas, implicados e consequências.
A classe média é o segmento mais dinâmico no contexto social 
contemporâneo do país. Todas as transformações verificadas desde que 
começou a política de distribuição de renda geram questões de enorme 
interesse público por conta das tensões e contradições que provocam. Mas 
a imprensa parece não ter se dado conta dos fenômenos sociais em curso 
e foca apenas no pior lado da ascensão da classe média, o seu descontrole 
emocional.
A mídia não deve deixar de cobrir os crimes, mas precisa situar o seu 
trabalho investigativo e documental num contexto de busca de soluções 
coletivas. Não adianta execrar assassinos e nem muito menos destruir 
reputações, se isto é promovido às custas do passionalismo e da 
curiosidade mórbida. A prisão não é o único e nem o mais eficiente 
desestímulo à banalização da violência na classe média. Saber por que 
e como o dinheiro, a busca de status, a conquista do poder e a competição 
desenfreada contaminaram as relações sociais é também uma missão 
da imprensa, porque afinal ela existe para servir ao cidadão e à sociedade.

http://fndc.org.br/clipping/a-violencia-na-classe-media-item-diario-da-agenda
-da-imprensa-936969/