O movimento dos “indignados”, que defendem a democracia e protestam contra a crise financeira, adquiriu neste fim de semana dimensão planetária, levando às ruas dezenas de milhares de pessoas em mais de 80 países. Inspirados pelos espanhóis, que desde maio desse ano realizam protestos em cidades como Madri e Barcelona e o “Occupy Wall Street”, cujo quartel-central é a Liberty Plaza, em Nova York, os manifestantes chamaram a atenção mundial e ganharam seguidores e admiradores.
É a primeira vez que uma “iniciativa cidadã” consegue organizar “de forma coordenada tantas manifestações em lugares diferentes e afastados”, disse o jornal El Pais, da Espanha. Sob slogans como “povos do mundo, levantem-se”, ou “sair à rua cria um novo mundo”, os “indignados” convocaram no sábado manifestações em 951 cidades. “Evidentemente, existe agora um movimento internacional”, confirmou o editorialista do Repubblica, Eugenio Scalfari.
Marcha de “indignados” na Espanha
Para Jon Aguirre Such, um dos integrantes do grupo Democracia Já, da Espanha, o alcance e a extensão dos protestos “demonstra que não se trata de um tema que diz respeito unicamente aos espanhóis, mas sim ao mundo inteiro. “A crise é mundial, os mercados atuam em escala global, a resposta, então, é mundial”, disse.
Na Itália, houve forte repressão policial
Além de Roma, onde dezenas de milhares de pessoas protestaram pacificamente, Madri e Lisboa foram cenário das maiores marchas. Milhares protestaram também em Washington e Nova York, onde 88 pessoas foram detidas. “Somos o povo, e eles nos venderam”, “a cada dia, a cada semanas, ocupemos Wall Street”, foram suas principais mensagens.
Em Londres, várias centenas de “indignados” passaram a noite de sábado para domingo em barracas na praça na frente da catedral de St. Paul, no coração da City, após a manifestação do dia anterior, marcada também por alguns confrontos e prisões. No sábado, de 2.000 a 3.000 “indignados”, segundo estimativas da BBC, protestaram ao redor da St. Paul, entre cartazes contra a política de austeridade do governo britânico e os cortes orçamentários, assim como contra o sistema financeiro.
Em Portugal, as manifestações também tiveram sucesso
Genebra, Miami, Paris, Saraievo, Zurique, Cidade do México, Lima, Santiago, Hong Kong, Tóquio, Sidney… a “indignação” contra o capitalismo foi expressada no sábado praticamente em todos os continentes.
Curiosamente, na França, o país de Stéphane Hessel, autor do livro Indigne-se, que deu nome ao movimento através do mundo, as marchas tiveram um impacto limitado. Em Paris, houve vários grupos de manifestantes que convergiram para a sede da Prefeitura, onde realizaram uma Assembleia Popular, mas sem o impacto visto nas outras cidades europeias.
Na América do Sul, o Chile foi palco de um dos maiores protestos
Popularidade
Para Todd Gitlin, pesquisador da Universidades de Columbia, o respaldo popular aos indignados vem acontecendo de forma mais rápida do que o conquistado pelo movimento antibélico, ou o movimento dos direitos civis. “Uma das principais demandas dos manifestantes é a crescente desigualdade e a falta de emprego”, afirmou o acadêmico ao Prensa Latina.
A Argentina também contribuiu para a revolta global
Em Washington, onde protetos também aconteceram, os manifestantes coincidiram com a Casa Branca ao expressar seu mal-estar contra o Congresso por não ter aprovado uma iniciativa do presidente Barack Obama para criar mais empregos.
Apesar de que alguns setores discutam a falta de liderança visível deste movimento, analistas dizem que outros protestos, como a dos direitos civis do século anterior, tiveram começo similar. “É hora que ocupemos Wall Street, ocupemos Washington, ocupemos o Alabama”, exclamou o reverendo Al Sharpton, dirigente dos direitos civis nos Estados Unidos e um dos organizadores da marcha.
07/02/2011 - 05h02 “Sinais de mudança”, diz Evo Morales na abertura do Fórum Social Mundial
Por Thandi Winston e Souleymane Faye*
Dacar, Senegal, 7/2/2011 (IPS/TerraViva) – Dezenas de milhares de pessoas marchavam pelas ruas de Dacar no dia 6, para marcar o início do Fórum Social Mundial de 2011. Ativistas carregam cartazes coloridos denunciando a grilagem de terras, as leis de imigração restritivas, os subsídios da agricultura na Europa e nos Estados Unidos, entre muitas outras questões.
Outros entoam gritos de liberdade e tocam tambores enquanto seguem pacificamente por um caminho que começa perto do escritório da emissora pública do Senegal, a RTS, e termina na Universidade de Cheikh Anta Diop, o centro desse encontro de uma semana.
O presidente boliviano Evo Morales, que esteve na marcha, convidou seus contemporâneos dos países pobres para fazer parte desse evento.
“Precisa haver uma conscientização e mobilização para colocar um ponto final no capitalismo e vencer os invasores, neocolonialistas e imperialistas […]. Apoio o levante popular na Tunísia e no Egito. São sinais de mudança.”, disse Morales, um antigo líder sindical que é participante regular dos encontros que envolvem movimentos antiglobalização.
“Precisamos resistir e conscientizar. Precisa haver um programa de luta social para construir um novo mundo,” disse ele.
“Nós precisamos salvar a humanidade e, para conseguir isto, precisamos conhecer nossos inimigos. Os inimigos do povo são os neocolonialistas e imperialistas. Nós devemos acabar com o modelo capitalista e colocar outro no lugar. É necessário dar um basta nos ricos e mudar o mundo.”
O prefeito de Dacar recepcionou os participantes, mas outros membros mais importantes do governo senegalês estavam ausentes. O presidente Abdoulaye Wade está fora do país, mas é esperado para tomar parte em um evento ao lado da presidente do Brasil ainda essa semana.
O Fórum Social Mundial se define como um espaço aberto, onde aqueles que são “opositores do neoliberalismo e de um mundo dominado pelo capital ou por qualquer outra forma de imperialismo se juntam para perseguir suas ideias”.
Como o evento desse ano foi levado para o Senegal, muitas das discussões devem girar em torno do que os organizadores chamam de crise da civilização e do capitalismo que atinge a África e o resto do mundo.
“Esta edição do Fórum deve contribuir para mudar o mundo. É uma chance para que os oprimidos deste mundo tenham uma voz própria”, disse o historiador senegalês, Boubacar Diop Buuba, professor da Universidade Cheikh Anta Diop.
Philip Kumah, um assistente social de Gana que trabalha para a Anistia Internacional, declarou que “nós estamos clamando por um fim às injustiças no nosso país, onde o governo rouba a terra das comunidades. Este Fórum é uma chance de o nosso governo ouvir nossas queixas”.
Para o ativista Beverley Keene, de Buenos Aires, realizar o Fórum na África é um marco muito importante. “É nossa vez de trocar experiências e avaliar o impacto que a crise financeira e a exploração dos minerais têm sobre os meios de subsistência das pessoas.”
A crise financeira se destaca dentre os temas dos debates a serem realizados no sexto dia, que procuram alternativas para “a crise do sistema capitalista”.
A feminista italiana, Sabrina Viche, disse que o evento é também uma oportunidade para ouvir as mulheres africanas. “Eu vim para Dacar dar meu apoio a todas as mulheres da África, que lutam para garantir que suas vozes sejam ouvidas, e eu quero ouvir o que elas têm a dizer, quais são suas lutas e como nós, do norte, podemos ajudá-las.”
No entanto, não é o suficiente conhecer. Canet Raphael, um sociólogo de Montreal, Canadá, disse à IPS que “as pessoas precisam saber para que serve um fórum social. O espírito do Fórum Social Mundial tem suas raízes nos movimentos sociais”.
Thierry Tulasne, que trabalha com assuntos de imigração para uma organização canadense, afirmou: “Eu não tenho certeza que os movimentos sociais possam mudar o mundo tão rapidamente. Mas estou certo de que pequenas gotas de água podem, eventualmente, se transformar em rios”. Envolverde/IPS
*Ebrima Sillah e Koffigan Adigbli, em Dacar, contribuíram para essa reportagem.
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Crédito: Abdullah Vawda/IPS Legenda: Marcha de abertura do Fórum Social Mundial em Dacar.